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domingo, setembro 13, 2015

Jeff Beck – Who Else! (1999)





Jeff Beck é um músico que sempre procurou explorar novos sons com sua música e esse desafio fez com que seus trabalhos sempre soem distintos. Não foi diferente em Who Else!, álbum lançado pelo guitarrista em 1999 no qual ele explora a música eletrônica, através de uma abordagem ritmíca techno, ainda que mantenha sua assinatura com um pé no blues e no rock clássico dos anos 60.


As duas primeiras faixas do disco, “What Mama Said” e “Psycho Sam”, trazem a influência da música techno e um pouco do peso do rock industrial. A guitarra de Jeff soa rascante, e bastante “moderna”, com frases gerando resultados bem diferentes do que um guitarrista pensaria normalmente. Jeff parece pensar no instrumento como um DJ nessas duas músicas. “Psycho Sam” traz Pino Paladino no baixo e Manu Katches na bateria e percussão. A banda base do disco tem Jennifer Batten na guitarra, Steve Alexander na bateria, Randy Hope-Taylor no baixo e Tony Hymas (também produtor do disco junto com Jeff Beck) nos teclados e efeitos. “Brush With The Blues”, gravada ao vivo, apresenta o guitarrista com sua sonoridade mais “tradicional”, digamos assim, num daqueles seus momentos de solos geniais. Uma aula de improvisação. “Blast From The East” retorna à onda techno, mas combinando com um riff de guitarra bem anos 60, com um quê de surf music, algo meio Dick Dale. “Space For The Papa” segue na mesma toada eletrônica, porém numa abordagem mais “lounge” com um riff meio hipnotizante, quase um mantra. O longo interlúdio no meio da música também reforça o clima oriental da faixa, e ao mesmo tempo nos traz Jimi Hendrix à mente. “Angel (Footsteps)” tem um som etéreo que se mantém todo o tempo de forma contemplativa e meditativa. Em “THX138”, Jeff busca novamente apoio no techno, mas sem a inspiração das faixas anteriores, fica parecendo aquela típica música para “completar o disco”. Se eu falei na melodia hipnotizante de “Space For The Papa”, e isso acontece também com outras músicas do disco, essa intenção de Jeff se faz presente na faixa seguinte de maneira explícita desde o título: “Hip-notica”. Curiosamente a faixa não consegue atingir tanto esse objetivo como algumas de suas parceiras anteriores. “Even Odds” com uma pegada mais rockeira clássica já chega com um riff à lá Jimmy Page, até a levada da bateria tocado por  Jan Hammer tem algo de John Bonham, lembrando muito o Led Zeppelin. No entanto, logo depois dessa breve primeira parte da música (praticamente uma introdução), surge uma bela melodia de Beck (que na verdade até me parece tocada por Jennifer Batten em sua guitarra midi soando próxima de um saxofone). “Declan” tem o velho truque de Jeff Beck tocando usando o botão de volume da guitarra, de forma que se aproxima do ataque de um arco no violino. A música tem participação de Clive Bell (flautas), Bob Loveday (violino), Mark John (violão) e Simon Wallace (sintetizadores). A música nos faz viajar por paisagens campestres norte-americanas, alguma coisa dos velhos westerns está implícita nela. “Another Place” fecha o disco, executada apenas por Jeff Beck num arranjo solo de guitarra. Um breve, mas tocante improviso.


Em Who Else!, Jeff Beck continuou sendo o músico inventivo de sempre, reafirmando sua musicalidade ímpar, com timbres de guitarra absolutamente únicos, e apesar de sua origem musical no blues e rock britânico dos anos 60, sua música continuava (e continua) apontando para algum lugar no tempo muito mais à frente. Ouvindo esse disco lançado em 1999, tenho a sensação que ainda não chegamos ao ponto em que Jeff estava quando o gravou há 16 anos.



Ainda: a campanha de financiamento do Workshop "Do Quarto Para O Mundo" de Augusto Licks em Belo Horizonte começa a entrar em sua reta final. Já foram arrecadados 30% do valor total. A nova cota dá direito a um mês de aula na Alaúde Escola de Música. Confira! 



domingo, setembro 06, 2015

Nei Lisboa - Pra Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina (1983)




A movimentação em torno da campanha de financiamento coletivo para a realização de um workshop de Augusto Licks em Belo Horizonte me remeteu a esse disco. Pra Viajar No Cosmos Não Precisa Gasolina foi o álbum de estreia do cantor e compositor gaúcho, Nei Lisboa. Na época, tocando com Nei Lisboa, além de sua guitarra marcante, Licks assinaria algumas parcerias com ele.  Entre elas, a faixa título. Coincidentemente, sua produção também foi resultado de um projeto de financiamento coletivo ancorado pelo artista. Quem comprasse antecipadamente o “Nei Lisbônus” garantia seu exemplar do disco. 

“A Tribo Todo Dia Em Festa” abre o disco com uma levada reggae. Um tecladinho malandro reforça essa inclinação da música. A letra traz um jogo de palavras onde sobressaem aliterações, “Keka qué casá com Zeca, Lolô loca coca? Cola e som, Marta Maharish meditação”. A tribo todo em dia em festa da qual Nei fala, não poderia ser outra senão “o povo brasileiro” que “sofri pá pagá o pão, bebi chopp e faz a revolução”. A curiosamente intitulada “Me Chama de Robert” é um frevo que fala de um certo gringo americano chamado Robert que Nei Lisboa conheceu em Porto Alegre e que depois de tomar umas e outras se “transformava” num "super-herói" que jogava bola como Pelé, e entre outros "super poderes"  se tornava uma chaminé ao fumar, e também virava a mãe do Brasil (se não conseguiu entender muita coisa, essa música já rendeu uma resenha no rockngeral depois de um encontro meu com o Nei Lisboa que você pode conferir aqui e se inteirar mais). O blues “Não Me Pergunte A Hora” foi escrita por Nei em parceria com Augusto Licks. Provavelmente a melhor faixa do disco, ela tem um dos muitos grandes solos que o guitarrista deixou registrados em sua carreira discográfica. A voz agradável e bela interpretação de Nei valorizam ainda mais cada um dos versos que ele escreveu para a canção. “Síndrome de Abstinência” traz a sonoridade gaúcha mais à tona com uma característica milongueira, mas também apresenta um breve interlúdio jazzístico. Com arranjos delicados de violão, “Doddy II” é outra faixa tocante do disco. A faixa título surge incorporando mais uma vez o blues ao som de Nei. Outra bem sucedida parceria com Licks e que também traz sua guitarra como destaque. Aliás, foi Augusto quem completou a frase, iniciada por Nei Lisboa ao dizer que “não precisa gasolina” pra viajar no cosmos.  “No no chance” é quase uma vinheta que passeia do jazz ao frevo e ao samba, tirando um leve sarro com os sobrinhos do Tio Sam (olha o Robert gringo aí de novo). “Rabo de Foguete” é uma parceria de Nei com Iotomar Polsko que traz uma citação à “Prenda Minha”, música tradicional gaúcha. “Exaltação” é uma elegia à erva...à erva com a qual se faz chimarrão. A música também se aproxima da sonoridade tradicional gaúcha. “Sinal Azul” é uma balada caprichada de Nei Lisboa em parceria com Augusto Licks, Glauco Sagebin e Peninha. “Água Benta” de Nei, Augusto e Clóvis Frimm fecha o disco com um quê de otimismo, e como a sonoridade geral do disco, tem aquela dose de “nostalgia artificial” dos anos 1980 que ficou datada tão rápido.

Com uma forte raiz gaúcha, mas sem se prender a tradicionalismos forçados, Nei revigorou a música de sua região, porém, atento a outras influências de diversas fontes como o rock, o jazz, o reggae, bem como diversas vertentes da música brasileira, como o frevo e o samba. Seus trabalhos seguintes tratariam de reafirmar isso a cada novo lançamento. Pra Viajar No Cosmos Não Precisa de Gasolina lançado como disco independente foi um grande cartão de apresentação de Nei Lisboa à música brasileira.




Em tempo: segue a campanha de financiamento do Workshop do Quarto Para O Mundo de Augusto Licks em Belo Horizonte. Já foram arrecadados 26% do valor total. Participe! 

domingo, agosto 30, 2015

Eric Clapton - Unplugged (1992)




Eric Clapton Unplugged foi o primeiro dos projetos acústicos lançados pela emissora MTV a render uma grande repercussão e vendagem de discos. O álbum foi top 1 da revista Billboard, rendeu seis prêmios Grammy ao músico e vendeu 24 milhões de cópias. Nem sempre esses prêmios e posições nas paradas querem dizer muito. É sabido como essas coisas podem ser manipuladas, comercial e politicamente, e que elas não são, necessariamente, indicadores de qualidade. Mas, no caso desse Unplugged, o trabalho realmente justifica seus méritos. Grande parte desse sucesso foi sustentando pela canção "Tears In Heaven" e a brilhante regravação de "Layla".

O disco abre com "Signe", instrumental despretensioso escrito por Clapton, cuja função era mesmo a de servir como um leve prelúdio do show feito para a TV. Na sequência Clapton ataca com dois blues, "Before You Accuse Me"  de Bo Diddley e "Hey Hey" de Big Bill Broonzy  que explicitam o quanto o músico domina o estilo. Mesmo tendo abordado vários estilos ao longo da carreira, como o rock, o reggae, o pop, a soul music, Clapton tem suas raízes musicais fincadas no blues que sempre aparece em seus trabalhos. O grande hit do disco, "Tears In Heaven" foi composta por Clapton em parceria com Will Jenenings em razão da perda de seu filho Connor de apenas 5 anos que faleceu ao cair do 53º andar do prédio em que morava na cidade de Nova York. A música havia sido lançada um ano antes na trilha sonora do filme Rush totalmente assinada por Clapton que também resultou num trabalho primoroso. "Lonely Stranger" é daquelas baladas que "só um rockeiro sabe fazer". Um dos grandes momentos do Clapton compositor que se une com maestria ao intérprete genial. "Nobody Knows You When You´re Down and Out" de Jimmy Cox é outro clássico do blues revisitado por Eric. O blues, sem dúvidas é o que guia este álbum. A inesperada versão de "Layla", clássico absoluto da carreira de Clapton, foi a investida mais ousada do disco, despida das marcantes linhas e riffs de guitarra da versão original, e o belo solo de piano tocado pelo baterista Jim Gordon (que assina essa composição com Clapton), transformando o estridente rock, numa balada sutil. O vocal rasgado e gritado torna-se suave, quase sussurrado. Talvez nem mesmo seu autor, esperasse que essa nova abordagem da música alcançasse tamanha relevância em seu repertório. "Running On Faith" de Jerry Lynn Williams, gravada originalmente por Eric em 1989 no disco Journeyman, é outro dos grandes sucessos apresentados no disco. Esta permanece mais próxima do original, até mesmo pela proximidade dos períodos das gravações. Da obra de seu grande ídolo e lenda mor do blues, Robert Johnson, surge "Walkin' Blues" e "Malted Milk" que Eric toca com absoluta autoridade. "Alberta" música tradicional com arranjo de Huddi Ledbetter e "San Francisco Bay Blues" de Jesse Fuller são outras músicas pinçadas do repertório blues que fizeram a cabeça a do jovem Eric Patrick Clapton e que ele apresenta com um misto de reverência e respeito aos velhos mestres. Também do disco Journeyman (e da mesma forma ficando mais próxima do original) é a música, "Old Love", parceria entre Clapton e o guitarrista Robert Cray. "Rollin' & Tumblin" de Muddy Waters fecha o disco num clima agitado de rythm and blues, de forma improvisada e despretensiosa, como a faixa de abertura.

Um dos pontos que mais fortalecem esse disco, junto ao repertório, e justifica o nome de "Unplugged" (Acústico) ao disco, é o domínio com que Eric Clapton toca violão. De importância inquestionável no trato da guitarra elétrica, ele toca violão com cordas de nylon, aço e um de 12 cordas com as pegadas características de cada um deles. Seja no dedilhado no violão com cordas de nylon de "Tears In Heaven" e "Lonely Stranger", seja na pegada mais blues/folk de "Layla", ou no slide de "Running On Faith". Na banda, os velhos companheiros, Nathan East no baixo, Andy Fairweather-Low no violão, Chuck Leavell nos teclados, Steve Ferrone na bateria, Ray Cooper na percussão, Katie Kisson e Tessa Niles nos backing vocals. O disco que teve produção de Russ Titelman, parceiro de Eric em outras empreitadas, tornou o formato "unplugged" tão popular que o conceito quase se tornou um "estilo de música". Em seus shows, os sets "acústicos" também viriam a ser sempre um momento marcante. Porém, com a sabedoria de quem estava no ramo há muito tempo e de como são frívolas algumas variantes do mercado,  no disco seguinte, ele se concentraria na gravação de um disco de clássicos do blues From The Craddle (sendo essa a ligação com o "Unplugged"), mas totalmente eletrificados. Vivendo um momento difícil com a perda do filho, Clapton se apoia no blues, canta e chora seus lamentos em seu violão, porém consegue manter a austeridade e equilíbrio de um velho bluesman para seguir na estrada.



Ainda: segue a campanha de financiamento coletivo do Workshop do Quarto Para O Mundo de AugustoLicks em Belo Horizonte. Já foram arrecadados 22% do total do projeto. Para saber mais, participar e/ou colaborar: http://www.kickante.com.br/campanhas/augusto-licks-workshop-do-quarto-para-o-mundo-em-bh

segunda-feira, agosto 10, 2015

Rolling Stones – Voodoo Lounge (1994)





Embora tenham realizado bons trabalhos com Bridges to Babylon (1997) e A Bigger Bang (2005), Voodoo Lounge é, até então, o último grande disco de estúdio dos Rolling Stones, capaz de figurar ao lado dos álbuns clássicos de sua carreira como Sticky Fingers (1971) ou Exile On Main St. (1972), por exemplo. Às vésperas de embarcaram numa monumental turnê mundial que viria a ser tornar a mais lucrativa da história, eles conseguiram o que toda banda projeta nessa situação, ter um álbum de sucesso tocando nas rádios. Pelo menos nos idos de 1994, isso ainda era fundamental antes da banda cair na estrada. (Tive o prazer de conferir um show dessa turnê. Exatamente o primeiro da banda no Brasil, realizado no Pacaembu em janeiro de 1995, mas isso fica para outra postagem).

As quinze músicas que constam no CD foram extraídas de uma lista de cerca de 70 canções que a dupla Jagger-Richards compôs para o trabalho. O resultado foi um álbum duplo primoroso. Começando pela faixa de abertura “Love Is Strong” puxada pela bateria de Charlie Watts anunciando a banda com a marcante guitarra de Keith Richards, o slide de Ron Woods e a gaita maliciosa tocada por Mick Jagger. A banda não foge de sua temática principal: canções de amor... ou melhor canções de sexo com um pouquinho de amor. Assim também é “You Got Me Rocking”, o rock rascante e pulsante que surge em seguida. No baixo, a novidade é o músico Darryl Jones, contratado depois da saída de Bill Wyman, membro original da banda. “Sparks Will Fly” mantém o pique “pra cima” do disco em mais um rock acelerado. O tradicional solo vocal de Keith Richards é também a primeira balada do disco, “The Worst”. Uma das melhores canções da discografia da banda com Keith nos vocais. O colorido extra da música fica por conta do pedal steel tocado por Ronnie Woods e o violino de Frankie Gavin. Jagger volta aos vocais também na balada “New Faces”, outro bom momento do disco, aonde o cravo tocado por Chuck Leavell é que dá a tônica. “Moon Is Up” afina um pouco a banda com a sonoridade da época, porém nada que faça a banda perder suas características. “Out Of Tears” retorna ao universo das baladas, dessa vez com o piano na condução. “I Go Wild” mostra a agressividade clássica da banda com pulsação forte e, não dá pra fugir do trocadilho, selvagem. Uma guitarra melindrosa com wah-wah tocada por Keith apresenta “Brand New Car” e somada ao sax de David McMurray fornecem o charme e particularidade da faixa no disco. Com um clima bem latino, “Sweethearts Together” vem com o acordeom de Flaco Jimenez e violão de nylon. O roquinho suingado “Suck In The Jugular” talvez seja a faixa menos inspirada do álbum, mas é imediatamente compensada por “Blinded By Rainbows”, outra grande balada, dessa vez com uma bela guitarra com efeito de tremolo em primeiro plano, mostrando a versatilidade e bom gosto de Keith Richards que não nos deixa esquecer a importância de uma boa guitarra base e como fazer uma textura eficiente com o instrumento. “Baby Break It Down” é uma amostra do lado rythm’n’blues dos Stones. Keith reaparece nos vocais em “Thru and Thru”, mais uma bonita balada na qual ele  também realiza outro interessante arranjo de guitarra numa linha mais blues. O fôlego final vem na faixa “Mean Disposition” na qual a banda acelera o ritmo novamente lembrando que o Rock'n'Roll não pode parar. Produzido por Don Was e os Glimmer Twins (codinome da dupla Jagger-Richards), “Voodoo Lounge” é um daqueles discos de rock para se ouvir em volume alto, e o vizinho que tenha paciência, ou agradeça por você ter bom gosto pelo menos!

O disco tem um instigante projeto gráfico com a capa estampando um desenho do que seria o “Voodoo Lounge”. Nome dado por Keith Richards a um gato de rua que ele adotou e que ficava no estúdio enquanto a banda gravava. No encarte a banda aparece em fotos com suas imagens avermelhadas e num fundo preto que nos leva a pensar num ambiente de pecado, seja um rendez-vouz, ou seja o próprio inferno que aparece de forma explícita num extrato da foto de Jac Remise intitulada “Satan’s Play Room” (sala de jogos de Satã) presente em seu livro “Satan’s Daily Life In The 19th” (Diário da vida de Satã no Século XIX), no qual várias caveiras se divertem num ambiente de jogatina. A língua símbolo da banda aparece em nova versão na contracapa, agora prateada e cheia de espinhos.




Entregando a idade: quando terminava de escrever a resenha em questão, lembrei que durante muito tempo ouvi esse disco através de uma fita K7 que gravei de um CD alugado. Os mais jovens talvez nunca tenham ouvido falar em locadora de CDs, mas isso existiu por um breve período em meados dos anos 1990.