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domingo, setembro 06, 2015

Nei Lisboa - Pra Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina (1983)




A movimentação em torno da campanha de financiamento coletivo para a realização de um workshop de Augusto Licks em Belo Horizonte me remeteu a esse disco. Pra Viajar No Cosmos Não Precisa Gasolina foi o álbum de estreia do cantor e compositor gaúcho, Nei Lisboa. Na época, tocando com Nei Lisboa, além de sua guitarra marcante, Licks assinaria algumas parcerias com ele.  Entre elas, a faixa título. Coincidentemente, sua produção também foi resultado de um projeto de financiamento coletivo ancorado pelo artista. Quem comprasse antecipadamente o “Nei Lisbônus” garantia seu exemplar do disco. 

“A Tribo Todo Dia Em Festa” abre o disco com uma levada reggae. Um tecladinho malandro reforça essa inclinação da música. A letra traz um jogo de palavras onde sobressaem aliterações, “Keka qué casá com Zeca, Lolô loca coca? Cola e som, Marta Maharish meditação”. A tribo todo em dia em festa da qual Nei fala, não poderia ser outra senão “o povo brasileiro” que “sofri pá pagá o pão, bebi chopp e faz a revolução”. A curiosamente intitulada “Me Chama de Robert” é um frevo que fala de um certo gringo americano chamado Robert que Nei Lisboa conheceu em Porto Alegre e que depois de tomar umas e outras se “transformava” num "super-herói" que jogava bola como Pelé, e entre outros "super poderes"  se tornava uma chaminé ao fumar, e também virava a mãe do Brasil (se não conseguiu entender muita coisa, essa música já rendeu uma resenha no rockngeral depois de um encontro meu com o Nei Lisboa que você pode conferir aqui e se inteirar mais). O blues “Não Me Pergunte A Hora” foi escrita por Nei em parceria com Augusto Licks. Provavelmente a melhor faixa do disco, ela tem um dos muitos grandes solos que o guitarrista deixou registrados em sua carreira discográfica. A voz agradável e bela interpretação de Nei valorizam ainda mais cada um dos versos que ele escreveu para a canção. “Síndrome de Abstinência” traz a sonoridade gaúcha mais à tona com uma característica milongueira, mas também apresenta um breve interlúdio jazzístico. Com arranjos delicados de violão, “Doddy II” é outra faixa tocante do disco. A faixa título surge incorporando mais uma vez o blues ao som de Nei. Outra bem sucedida parceria com Licks e que também traz sua guitarra como destaque. Aliás, foi Augusto quem completou a frase, iniciada por Nei Lisboa ao dizer que “não precisa gasolina” pra viajar no cosmos.  “No no chance” é quase uma vinheta que passeia do jazz ao frevo e ao samba, tirando um leve sarro com os sobrinhos do Tio Sam (olha o Robert gringo aí de novo). “Rabo de Foguete” é uma parceria de Nei com Iotomar Polsko que traz uma citação à “Prenda Minha”, música tradicional gaúcha. “Exaltação” é uma elegia à erva...à erva com a qual se faz chimarrão. A música também se aproxima da sonoridade tradicional gaúcha. “Sinal Azul” é uma balada caprichada de Nei Lisboa em parceria com Augusto Licks, Glauco Sagebin e Peninha. “Água Benta” de Nei, Augusto e Clóvis Frimm fecha o disco com um quê de otimismo, e como a sonoridade geral do disco, tem aquela dose de “nostalgia artificial” dos anos 1980 que ficou datada tão rápido.

Com uma forte raiz gaúcha, mas sem se prender a tradicionalismos forçados, Nei revigorou a música de sua região, porém, atento a outras influências de diversas fontes como o rock, o jazz, o reggae, bem como diversas vertentes da música brasileira, como o frevo e o samba. Seus trabalhos seguintes tratariam de reafirmar isso a cada novo lançamento. Pra Viajar No Cosmos Não Precisa de Gasolina lançado como disco independente foi um grande cartão de apresentação de Nei Lisboa à música brasileira.




Em tempo: segue a campanha de financiamento do Workshop do Quarto Para O Mundo de Augusto Licks em Belo Horizonte. Já foram arrecadados 26% do valor total. Participe! 

domingo, agosto 23, 2015

Augusto Licks - Workshop "Do Quarto Para O Mundo"




Nos últimos dois anos, ele foi citado com freqüência nas postagens do rockngeral na retrospectiva discográfica que fiz sobre sua carreira com os Engenheiros doHawaii. Agora, Augusto Moacir Licks reaparece por aqui numa das melhores notícias do ano para os músicos em geral e apreciadores de seu trabalho. Ele pode ter confirmado uma edição de seu workshop “Do Quarto Para o Mundo” em Belo Horizonte (cidade natal e residência deste que vos escreve). Organizado por Rodrigo Pedrosa e Manu Meneses, o workshop está em campanha no site kickante e uma vez que o financiamento seja concluído, Augusto Licks estará na capital mineira no dia 17 de outubro para a realização do evento. A campanha vem conquistando rápida adesão de músicos e estudantes, bem como de fãs interessados em apoiar o workshop e que embora não possam participar, seja por não serem músicos ou impossibilidade de estar na cidade na data do evento, receberão recompensas como palhetas personalizadas, posters, entre outros brindes elaborados pela produção. 
  
Uma das recompensas dos colaboradores da campanha será a participação em um Grupo Privado no Facebook que está prestes a ser lançado. Segundo informação obtida pelo rockngeral em primeira mão junto à produção do workshop, os participantes se surpreenderão com o conteúdo e depoimentos do próprio Augusto para o grupo.


Além do trabalho de sete anos com os Engenheiros do Hawaii, fase que rendeu os discos mais marcantes e de maior vendagem da carreira da banda, Licks tocou com o músico gaúcho Nei Lisboa nos anos 1980 com quem também registrou algumas parcerias. Depois de sua saída da banda atuou na composição de trilhas sonoras para cinema e teatro. Também realizou trabalhos como jornalista em rádio e TV, além de ter sido colunista de futebol para o Estado de São Paulo Online.


Para mim é uma grande satisfação pode colaborar com esse projeto e assistir ao workshop realizado pelo guitarrista brasileiro que mais me influenciou no caminho que venho trilhando na música até aqui. Certamente uma oportunidade única para os músicos belo-horizontinos que poderão conferir dicas de Augusto Licks sobre a carreira musical, instrumentos, produção e tecnologia. Com duração de quatro horas, participação limitada a trinta pessoas e planejado para ser bastante interativo com metade do tempo sendo direcionado ao músico responder às perguntas dos participantes, o público terá uma rara oportunidade de tirar dúvidas sobre as mais diversas variáveis da carreira musical.


Durante toda a duração da campanha de financiamento, as postagens do rockngeral trarão sempre os links e um acompanhamento de como anda o projeto.


Para saber mais detalhes, colaborar ou participar acesse as páginas no site kickante e no facebook. 



Sobre o Augustinho você também encontra mais informaçãos no blog: https://augustolicks.wordpress.com/

domingo, março 31, 2013

Engenheiros do Hawaii - Uma Breve Viagem Discográfica: Os Anos Gessinger, Licks & Maltz

2. Capítulo I

A Revolta dos Dândis (1987)



Uma característica da banda sempre foi nadar contra a maré, acredito que nem sempre isso tenha sido proposital, mas numa década em que tudo soava pop demais, em especial o ano de 1987 quando quase todos os discos pareciam ter o mesmo som (por mais distante que os estilos pudessem ser) gerado por baterias eletrônicas, sintetizadores e toda a parafernália que veio com a evolução do áudio digital que começava a tomar conta do mercado e foi usada sem moderação alcançando seu ápice naquele momento (claro que houve quem usasse essas “novidades” com extrema competência como o fez Michael Jackson em Bad, seu disco daquele ano), os Engenheiros do Hawaii lançaram um álbum com sonoridade totalmente “setentista”, reforçado pelo uso de guitarras e amplificadores Fender e Gibson, baixo Rickenbacker, violão Martin, gravado praticamente sem overdubs, um som cru e direto com uma nova linha de arranjos que se adequava mais às temáticas das letras, produzindo climas mais melancólicos e roqueiros, talvez esse tenha sido o primeiro forte efeito da entrada de Augusto Licks (vindo da banda do cantor e compositor Nei Lisboa) na banda assumindo a guitarra e Humberto Gessinger se deslocando da guitarra para o contrabaixo com a saída de Marcelo Pitz, unidos à bateria de Carlos Maltz, eles comporiam o power trio que foi formação definitiva dos Engenheiros. 

O disco, cujo nome é emprestado de um capítulo do livro O Homem Revoltado de Albert Camus e que assim como seu antecessor, Longe Demais das Capitais também foi produzido por Reinaldo Barriga Brito, abre com a canção título acrescida da numeração I, já flertando com o rock progressivo e seus cacoetes como o costume de enumerar as músicas ou dividi-las em partes, as letras de Humberto Gessinger apresentam um grande salto qualitativo já nos primeiros versos inspirados no citado livro de Camus, "entre o rosto e o retrato, o real e o abstrato, entre a loucura e a lucidez, entre o uniforme e a nudez, entre o fim do mundo e o fim do mês" numa série de paralelos que deságua na irônica comparação "entre a verdade e o rock inglês". No instrumental a condução principal é do violão e uma harmônica aparece fazendo o solo da introdução, outra marca da presença de Augusto Licks na banda, o baixo mixado num alto volume também é marcante na levada da música. Terra de Gigantes conduzida apenas por duas guitarras tocadas por Humberto e Augusto que executa seu primeiro belo solo numa gravação dos Engenheiros. A bateria de Carlos Maltz entra apenas fazendo uma curta virada e saindo da música instantaneamente como forma de afrontar o diretor da gravadora que ao ouvir a canção sugeriu que se eles colocassem bateria na faixa ela se tornaria um hit, o que realmente aconteceu mesmo depois deles terem dispensando a sugestão do diretor e ainda excluíram sua letra do encarte que em contrapartida traz a letra de Sweet Gardênia (essa seria a primeira parceria registrada por Maltz e Gessinger que assina sozinho todas as canções do disco), uma música que não consta no disco (e jamais foi lançada oficialmente pela banda, embora atualmente uma gravação da mesma circule pela internet), coisas dos Engenheiros do Hawaii. O verso inicial da canção arrebataria boa parte da geração de rockeiros que se fazia e que viria depois: "Hey mãe, eu tenho uma guitarra elétrica, durante muito tempo isso foi tudo que eu queria ter". Na sequência, a música que se tornaria o maior sucesso da banda, Infinita Highway, apesar dos protestos dos diretores da gravadora de que a música era longa demais com a letra igualmente extensa (e que também traz citação a outro filósofo existencialista, Jean-Paul Sartre, "a dúvida é o preço da pureza"), sem refrão e pouca instrumentação, o que levou a gravadora a lançar nas rádios, à revelia da banda, uma versão acrescida de teclados, metais e percussão logo vetada pela banda. E foi com a guitarra limpa executando frases bluseiras, o baixo marcante e a bateria simples e firme que ela despontaria a banda de vez no cenário nacional. Refrão de Bolero, outro clássico da banda (que na verdade só veio a fazer sucesso mesmo três anos depois numa versão ao vivo com arranjo totalmente diferente no qual Humberto troca o contrabaixo por um teclado) tem Augusto Licks dando um show na guitarra desde o efeito de volume na introdução até culminar num solo espetacular no final depois do tema principal ser apresentando de maneira arrastada e propositalmente monótona e deprê, uma das melhores letras na linha mais "romântica" de Humberto ("coração na mão como um refrão de bolero, eu fui sincero como não se pode ser"). Filmes de Guerra, Canções de Amor que viria a se tornar título do derradeiro disco da formação apresenta um dueto vocal entre Humberto e Carlos com uma letra quilométrica com boas frases de efeito de Humberto: "os dias parecem séculos e se parecem uns com os outros, como enfermeiras nos filmes de guerra e violinos nas canções de amor", "não tenho medo de perder a guerra, pois no fim da guerra todos perdem".

A Revolta dos Dândis II abre o lado B com o mesmo riff d’ A Revolta dos Dândis I executados pelo contrabaixo e o violão e a exemplo da primeira, traz um jogo de comparações: "já não vejo a diferença entre os dedos e os anéis, já não vejo a diferença entre a crença e os fiéis" e também apresenta um solo de harmônica. Além dos Out-Doors começa a esboçar o estilo que o trio viria a ter nos anos seguintes numa grande performance instrumental de Gessinger, Licks & Maltz. O padrão começava a ser estabelecido. Vozes traz Augustinho no órgão Hammond e Humberto na guitarra de 12 cordas com Carlos invariavelmente na bateria, no final da canção aparece pela primeira vez um riff que eles voltariam a repetir em outros momentos da discografia, na canção Várias Variáveis (do disco homônimo) e A Verdade A Ver Navios (de Ouça O Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém). Quem Tem Pressa Não Se Interessa aparece num atípico arranjo instrumental construído apenas por baixo e bateria e Humberto joga mais uma de suas frases contundentes: "eles têm razão, mas razão é só o que eles têm". Desd'aquele Dia traz de volta a faceta "tentativa de canção romântica" de Humberto com uma quase total falta de jeito para tocar no assunto que me agrada muito "Desd'aquele dia nada me sacia, minha vida tá vazia, desd'aquele dia, parece que foi ontem, parece que chovia". Fechando o segundo disco dos Engenheiros e primeiro do trio Gessinger, Licks e Maltz, Os Guardas da Fronteira com a participação do também gaúcho Júlio Reny nos vocais e com nova citação à Sartre ("acontece que eu não tenho escolha por isso mesmo é que eu sou livre, não sou eu o mentiroso, foi Sartre quem escreveu o livro). Estava formado o trio, o time, assim como nas grandes bandas e equipes era estabelecido um equilíbrio; nesse caso, das composições, sobretudo as letras de Humberto com a guitarra e o tratamento musical dado por Augusto a essas canções somados ao suporte de Carlos, tudo o que faria a banda ser amada por uns e odiada por outros já aparecia nesse disco, as letras, o conceito das capas, nesse caso subdividida em nove partes com fotos mostrando os integrantes à distância, sem closes e a letra da canção título já exposta ali mesmo, trazendo ainda pela primeira vez as engrenagens que seriam outra marca registrada da banda, a cor amarela dava início a uma trilogia que enfocava as cores da bandeira do Rio Grande do Sul. Ainda no encarte, fotos de Roberto Carlos, Noel Rosa, Mané Garrincha, Vicente Celestino, um desenho do Eddie (o mascote da banda Iron Maiden) e todos os presidentes da República Nova partindo de JK até Leonel de Moura Brizola aparecendo como um provável (e desejado por eles) novo presidente substituindo José Sarney então no seu segundo ano de mandato. Mais do àqueles a quem eles queriam agradar, eles sabiam a quem queriam desagradar. E conseguiram! ( “Antes morrer de pé do que viver de joelhos”, diria Camus).



Em tempo: ele, o tempo, anda faltando e por isso nunca consigo postar com a regularidade que eu gostaria, essa série sobre os discos dos Engenheiros do Hawaii da Era Gessinger, Licks & Maltz eu tentarei postar com frequência mensal intercalado com outros temas.

P.S: Se alguém tiver uma imagem melhor da capa do disco A Revolta dos Dândis para me mandar, ficarei eternamente grato, pois essa foi a melhor que encontrei na internet, tenho o disco em vinil, mas não possuo uma dessas máquinas ultra modernosas que me permita fotografá-lo com qualidade muito melhor.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Engenheiros do Hawaii - Uma Breve Viagem Discográfica: Os Anos Gessinger, Licks & Maltz

1. Prefácio

Longe Demais das Capitais (1986)



Também chamada pelos fãs de Santíssima Trindade, a junção de Humberto Gessinger, Augusto Licks e Carlos Maltz é a formação que podemos chamar de clássica dos Engenheiros do Hawaii e aquela que me fez gostar da banda, ainda hoje a minha predileta na seara nacional (levando-se em conta essa formação!) e por obra do acaso ainda não tinha aparecido aqui no rockngeral. Juntos eles lançaram sete discos, do segundo ao oitavo de sua discografia, porém julguei importante incluir o primeiro disco, antes da entrada do guitarrista Augusto Licks, ainda com Humberto Gessinger na guitarra e Marcelo Pitz no contrabaixo e completada por Carlos Maltz na bateria. A idéia inicial era comentar os oito discos em um único post como fiz em Uma Breve Viagem Discográfica com a banda TheCranberries, mas como achei que as resenhas dos discos dos Engenheiros ficariam bem maiores, resolvi optar por dividir os oito discos em duas postagens, tentando controlar ao máximo para não ficarem muito longos, mas logo nos comentários do primeiro disco, vi que não ia dar, decidi fazer uma postagem por disco mesmo, cujas publicações pretendo intercalar a publicações com outros temas (ainda não defini a periodicidade que irei postando sobre a discografia dos EngHaw, talvez uma por mês), então, sem mais delongas,  “voltemos enfim ao início”:
 
Humberto Gessinger (guitarras e vocal), Carlos Maltz (bateria, percussão e voz) e Marcelo Pitz (contrabaixo e voz) conheceram-se na faculdade de Arquitetura em Porto Alegre. Segundo a lenda, eles juntaram-se especificamente para tocar numa das festas da faculdade que aconteceria na noite de 11 de janeiro de 1985, no mesmo momento em que ocorria a estréia do Rock In Rio I, pois devido a uma greve as aulas se estenderam até o período de férias e os estudantes de lá não poderiam ir à Cidade do Rock no Rio de Janeiro para conferir as apresentações. Carlos Stein que depois viria a se tornar guitarrista da banda Nenhum de Nós também participou dessa formação pré-discográfica da banda que se iniciou com uma participação numa coletânea intitulada Rock Grande do Sul, na qual os Engenheiros participaram com as canções Sopa de Letrinhas e Segurança que reapareceriam em seu primeiro disco, porém com a segunda canção apresentando uma versão diferente. Embora seja o primeiro da banda, esse foi o último dos oito discos que eu adquiri e segundo o simpático vendedor que me atendeu, tratava-se do melhor disco deles. Longe Demais das Capitais não poderia abrir com outra canção que não fosse Toda Forma De Poder, embora o disco ainda não apresentasse o que seria conhecido como o som que se tornaria característico da banda, essa letra já trazia a marca de Humberto Gessinger com seu estilo crítico e político, tímido e agressivo, acidentalmente intelectual e aparentemente arrogante que tanto irritou a “crítica” dita especializada da época. Versos como o de abertura “Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada” ou “Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada” atestam isso. Ela conta com a participação do cantor e compositor gaúcho Nei Lisboa (com quem o futuro guitarrista da banda Augusto Licks tocava, tendo inclusive algumas parcerias) nos vocais e acabou tornando-se o hit do álbum, além de aparecer na trilha sonora da telenovela da Rede Globo, Hipertensão. Segurança reaparece aqui com versão diferente da lançada anteriormente na coletânea Rock Grande do Sul como disse anteriormente, tanto na letra quanto no arranjo instrumental e revela uma temática mais juvenil que apareceria em outras canções do disco. No saxofone, a participação especial de Manito d’Os Incríveis, banda da qual num futuro não muito distante os Engenheiros regravariam a versão da música italiana “Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e os Rolling Stones” relançada pelos Incríveis no auge da Jovem Guarda com grande êxito que seria repetido com a gravação dos Engenheiros. Segurança também foi incluída na trilha sonora da telenovela Corpo Santo da extinta TV Manchete, essa sempre foi uma forma muito eficaz de divulgar a música popular no Brasil e a gravadora da banda, RCA, aproveitou para incluir mais uma canção dos novos pupilos no esquema. Eu Ligo Prá Você, assim como Segurança e uma série de outras canções no disco tem uma influência do ska que vinha de uma grande repercussão especialmente por causa da banda The Police. Nossas Vidas tem mais ainda um pé no reggae, devido a essa fonte comum de influência, os Engenheiros chegaram a ser associados aos Paralamas do Sucesso que já vinham nessa onda desde o início da década quando apareceram no cenário nacional em 1983 e segundo Gessinger a própria gravadora pretendia lançá-los como uma espécie de “Paralamas dos Pampas”. “Eu já mandei em mandar tudo pro inferno, mas não pensei que fosse tão difícil ficar sozinho numa noite de inverno” suscita outra influência que apareceria vez por outra nas letras de Humberto que é a dupla Roberto e Erasmo Carlos. Fé Nenhuma é um pouco mais pesada e apresenta um bom riff de guitarra distorcida na introdução reforçado por uma das boas linhas de baixo de Pitz. Com seus versos “Não levo fé nenhuma em nada, mas ninguém tem o direito de me achar reacionário, não acredito no teu jeito revolucionário”, a música provavelmente ajudou a criar uma equivocada imagem niilista que a banda tinha. Beijos Prá Torcida com uma levada que chega a ser quase um charleston (se é que não é) é mais um embrião do estilo de composição de Humberto que começava a se desenhar, mais especificamente em relação às letras: “Jogam bombas em Nova York, jogam bombas em Moscou/Como se jogassem beijos prá torcida depois de marcar um gol”. 

Todo Mundo É Uma Ilha, título de uma canção que depois viraria verso da música Terra De Gigantes renega a teoria do poeta John Donne de que ninguém é uma ilha, canção de um quase-amor juvenil, daqueles que nunca davam (dão) em nada (“Não me leve a mal, mas eu não to legal, quero ficar sozinho”) com o refrão “Você não sabe o que eu sinto, você não sabe quem eu sou” remetendo mais uma vez a Roberto e Erasmo em Eu Sou Terrível (“você não sabe de onde eu venho, o que eu sou, nem o que tenho”). A canção título fala da distância da cidade natal da banda, Porto Alegre em relação ao eixo Rio-São Paulo (“estamos longe demais das capitais”), hoje me soa estranho (talvez na época eu não me desse conta) uma banda batizar um álbum ou uma música que fosse com um título como esse, o que só gerou mais má interpretação sobre a banda, mas ainda assim, eles se justificariam dizendo no release do disco:  “viemos falar da nossa aldeia pra quem quiser ouvir”. Sweet Begônia é outro reggaezinho agradável do disco, com seu texto autodepreciativo (“você diz que eu tenho pouco quase nada a oferecer, tudo que eu faço você diz que está errado, você me acha um fracasso e eu não acho isso engraçado”) traçava um pouco do perfil da banda e de seus ouvintes. Humberto se sai muito bem no solo cheio de swing da canção. Nada A Ver também apresenta alguns versos que antecipam o estilo de letras de Humberto, cheio de imagens, citações de ícones pop, jogos de palavras e aliterações: “Um cão sem dono, uma árvore no outono, o nono mês de gravidez, eu perco o sono ao som de Yoko Ono e telefono prá vocês”. Crônica foi uma canção com certo destaque em shows na época, mas que depois de uma sumida do repertório acabou reaparecendo no disco Filmes de Guerra, Canções de Amor de maneira muito forte e se tornou fixa por um bom tempo no setlist da banda, “Todo mundo já tomou a Coca-Cola e a Coca-Cola já tomou conta da China, toda cara luta por uma menina e a Palestina luta prá sobreviver”, exemplifica mais uma vez a mistura maluca e tímida de política/amor que tantas vezes reapareceria na obra dos Engenheiros. Sopa de Letrinhas fecha essa primeira empreitada da banda e mais uma vez "dá um olá" para obra de Roberto e Erasmo “nosso amor é pós-moderno, eu quero que você se aqueça nesse inverno”, ela é assinada em parceria com Marcelo Pitz, as demais canções do disco são assinadas exclusivamente por Humberto Gessinger. 

O disco produzido pelo guitarrista Reinaldo B. Brito, tem algo de obscuro desd’ a capa apresentando uma paisagem campestre, o visual dos integrantes não muito à vontade e nenhum pouco descolado que não se parece com as músicas que em sua maior parte, com suas levadas alegres de ska/reggae, não se parecem com as letras bucólicas (Humberto diria que ska era a única coisa que ele sabia tocar na guitarra). Apesar de ainda não ter um instrumental vigoroso como eles apresentariam nos discos seguintes com a entrada de Augusto Licks na banda, ele é competente e tem aquela cara de primeiro disco super sincero de uma banda de rock que ainda não sabe o que quer, nem aonde quer chegar e talvez mesmo se recuse a querer chegar a algum lugar.