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domingo, agosto 16, 2015

Paul McCartney - Many Years From Now – Barry Miles




Publicado em 1997, Many Years From Now é a biografia autorizada de Paul McCartney escrita por seu amigo Barry Miles. A caprichada edição brasileira manteve o título original (um verso extraído da canção "When I’m 64") em inglês mesmo (curiosamente a editora, DBA também tem nome no idioma oficial do velho Macca,  Dórea Books And Art). 


Essa biografia tem um sabor quase de uma autobiografia, uma vez que o autor sendo amigo de Paul realizou diversas entrevistas com ele com um acesso que nenhum outro biógrafo teria, o que faz com que a obra tenha uma grande série de depoimentos até então inéditos do beatle. Embora apresente certa isenção, Barry Miles provavelmente não escreveu nada que o músico não gostaria de ler. O que não desabona o livro, já que é sempre bom conhecer a história do ponto de vista de quem realmente a viveu. E juntando outros depoimentos e livros, podemos ter um recorte razoável, e digamos talvez mais real de como de fato as coisas se deram. Alguns livros citados na enorme bibliografia que consta no final do livro são boas recomendações para isso.


O livro foca mesmo na fase beatle da carreira de Paul, relegando os Wings e a carreira solo a um breve resumo que consta no posfácio. Uma das críticas que ouvi de alguns fãs dos Beatles foi o fato de ao comentar cada uma das canções compostas com John Lennon, Paul tenha quantizado qual foi a participação de cada um na música, como “Drive My Car” que ele diz ser 70% sua ou “Girl” que ele atribui mais a John, embora ressalte que também contribuiu bastante. Mas, ele também se alivia ao mencionar que entre ele e John só duas músicas suscitaram desacordo quanto ao papel de cada um em suas composições, “In My Life” e “Eleanor Rigby”.


Many Years From Now revela muito da intensa vida social e artística de Paul nos anos 60 na “Londres Vanguardista” (esse inclusive é o título de um dos capítulos) e como ele influenciou e foi influenciado naqueles dias que revolucionaram tanto uma época que ainda hoje não parece ter sido superada culturalmente. Uma frase de Paul logo no início do livro resume bem essa ideia: “Sinto como se os anos 60 ainda estivessem para acontecer. Eles me parecem um período mais no futuro do que no passado”.

domingo, agosto 02, 2015

Nos Bastidores do Pink Floyd – Mark Blake






Editado originalmente em 2007 com o nome bem mais interessante Pigs Might Fly: The Inside History of Pink Floyd, o livro do jornalista Mark Blake é uma aprofundada biografia da banda e seus integrantes. No Brasil, provavelmente devido a questões de marketing, ele recebeu o título menos representativo de Nos Bastidores do Pink Floyd, uma vez que a tradução do título original seria algo como “Os Porcos Podem Voar: Por Dentro da História do Pink Floyd”, tendo aqui os “porcos voadores” uma alusão ao suíno voador inflável que ilustra a capa do disco Animals, e que se tornou parte de alguns shows da banda. 

O Pink Floyd é provavelmente, entre as bandas de grande sucesso surgidas entre as décadas de 1960 e 1970, a que tem sua história mais obscurecida, o que se deveu em grande parte a aversão de seus integrantes à grande mídia, em especial a postura do baixista, compositor e vocalista Roger Waters que evitava ao máximo dar entrevistas. Hábito também cultivado pelos outros integrantes da banda, David Gilmour, Rick Wright e Nick Mason. Esse, aliás, é um dos temas do qual o livro trata, a conturbada relação da banda com a mídia. Há de se dizer que o que não falta na história da banda são relações conturbadas. Assim como foi sua convivência com a imprensa, também foram as relações da banda com as gravadoras, entre os integrantes e mesmo da banda com seu público. (Devido exatamente a essa postura, eu custei para saber um pouco mais a respeito da banda quando comecei a ouvi-la no começo dos anos 1990. Durante algum tempo, uma fitinha k7 gravada de um especial no rádio, um disco de vinil emprestado por um amigo que não trazia nenhuma imagem dos integrantes eram toda a informação que eu tinha sobre o Floyd. A primeira vez que vi a "cara da banda" foi numa resenha publicada numa revista que trazia uma foto não muito nítida dos integrantes sentados na beirada do palco nos anos 1970).

Blake conseguiu equilibrar bem a presença de cada um dos integrantes da banda nas 454 páginas do livro, embora ele fatalmente acabe focando bastante na figura de Roger Waters, e em momento algum ele abandone a existência de Syd Barret na história do Floyd. O autor realizou um esmiuçado histórico do processo de gravação de todos os discos da banda (incluindo também os discos solos) e análise dos mesmos, bem como das turnês que eles realizaram. O texto começa pelo fim, ou por o que foi o último encontro público da banda tocando no dia 2 de julho de 2005, quando a improvável reunião de Waters, Gilmour, Wright e Mason se deu no palco do evento Live 8 em Londres. Vale lembrar que o livro foi publicado um ano antes da morte de Rick Wright. Em seguida, Blake já assume a ordem cronológica dos fatos, buscando lembranças da infância e adolescência dos músicos e dos primórdios da criação da banda, os caminhos que eles trilharam no underground até atingiram o estrelato e a fama com a qual a banda conviveu com certa dose de angustia e descontentamento, fruto da superficialidade gerada pela popularidade. Tema que seria inclusive o mote principal do disco The Wall. O livro retrata de forma bastante direta a verdade musical e psicológica da banda para além do bem e mal.



Ainda: Fatalmente as biografias que me interessam são aquelas que investigam a vida do biografado no sentido em que a mesma dialoga e tem importância com sua obra, mas às vezes também é legal descobrir algumas informações aparentemente bobas como o fato de David Gilmour ter contratado duas bandas covers para tocar em sua festa de 50 anos, uma de Pink Floyd e outra de Beatles, e ainda saber que George Harrison estava presente na festa.

domingo, setembro 28, 2014

The Beatles In America – Spencer Leigh





Para quem gosta de Beatles, o assunto nunca acaba. Numa das últimas postagens, comentei sobre o livro Can’t Buy Me Love de Jonathan Gould que trata da história da banda, dando enfoque na repercussão que a banda causou na Inglaterra e nos EUA. O livro The Beatles In America: The Stories, The Scene, 50 Years On de Spencer Leigh, editado pela Omnibus Press em 2013, vai no mesmo caminho. Porém, tendo apenas os Estados Unidos como alvo (o autor tem ainda dois livros sobre os passos dos Beatles em Liverpool, e outro em Hamburgo). 

Tendo um estilo de diário e livro de fotografia, o volume repassa a trajetória da banda em terras norte-americanas desde a histórica primeira visita em 1964 até o rompimento oficial em 1970, não deixando de incluir uma introdução sobre os primórdios da banda na Inglaterra, e um prólogo no qual cita momentos relevantes de John, Paul, George e Ringo EUA depois da separação, entre eles, o fatídico assassinato de John Lennon em Nova York.

A intenção de Spencer Leigh não foi fazer um estudo e análise mais aprofundada da carreira dos Beatles, como fez Jonathan Gould em Can’t Buy Me Love. Leigh, na verdade, coletou materiais que ilustram bem o texto com muitas fotos, recortes de jornais, e declarações de artistas, entre outros norte-americanos que de alguma forma cruzaram o caminho dos FabFour. Nesse caso, The Beatles In America, funciona como um ótimo complemento ao livro de Gould. Sem edição em português, o livro ricamente ilustrado, vale até mesmo para quem não lê no idioma dos rapazes de Liverpool, em razão do extenso arquivo fotográfico.

domingo, agosto 24, 2014

Minha Fama de Mau – Erasmo Carlos


 

Eu o ouvi dizer, sei lá quantas vezes em entrevistas à época do lançamento em 2009 que esse livro não seria uma autobiografia, mas sim um apanhado de casos que ele viveu e que achava engraçados, interessantes ou no mínimo curiosos. Ainda assim a primeira crítica que li do livro Minha Fama de Mau de Erasmo Carlos começava chamando-o de “a autobiografia de Erasmo Carlos”. Mesmo que qualquer um que o leia veja claramente que não se trata de uma autobiografia no sentido mais restrito da palavra, o tal crítico malhava a falta das informações que uma biografia deveria ter e mais uma série de besteiras literárias que não cabem aqui. Mas, o que importa mesmo, é que essa é uma leitura muito válida para quem gosta de Erasmo e da música brasileira.

Sem carregar o peso e a preocupação de fazer uma autobiografia, Erasmo juntou uma série de casos que passeiam por toda a sua vida e carreira, desde encontros na infância com Tim Maia e, na adolescência com Roberto Carlos (que mereceu um capítulo só seu, além de aparecer em vários casos nos outros capítulos), o início da carreira artística com o conjunto The Snakes, a glória atingida com a Jovem Guarda, a fase mais experimental que se deu por influência da Tropicália (que por sua vez teve lá sua influência por parte da Jovem Guarda), o casamento com Narinha, os filhos, amigos que apareceram no caminho, alguns que já se foram, mas sempre lembrados com estórias que guardam um tom de alegria e satisfação, um pouquinho de amargura mesmo só quando se sente obrigado a lembrar da morte da ex-mulher Narinha.

A narrativa de Erasmo flui de forma fácil e estimulante. Um livro para ler numa sentada só. Ele não tem muito pudores e fala na maior tranquilidade de casos e mais casos com mulheres, ainda que nunca cite os nomes e não esconde suas fraquezas se elas lhe renderem boas histórias. O livro se torna mais saboroso ainda para quem tem um conhecimento razoável da história da música brasileira nos últimos cinquenta anos porque em vários momentos se têm uma visão por outro ângulo de uma série de casos públicos e de bastidores já conhecidos. Junte a ele os livros de Nelson Motta: Noites Tropicais e O Som e a Fúria de Tim Maia e, Verdade Tropical de Caetano Veloso e já terá uma boa ideia de como a música brasileira se desenvolveu nesses anos, contados porque quem realmente viveu a história toda.

Quanto ao título em alusão a canção de mesmo nome composta por Erasmo e Roberto Carlos, ele não faz tanto jus assim ao que o Tremendão (eterno apelido de Erasmo) realmente parece ser. Ele sempre foi um cara direto e sincero, pelo menos sua música mostra isso, na Jovem Guarda também fazia o tipo mais cafajeste com canções como “Terror dos Namorados”, “Você Me Acende” e outras além de “Fama de Mau”, mas talvez a sua fama de mau seja muito fruto do fato de seu parceiro musical mais frequente e melhor amigo ter sustentando sempre uma imagem com "ar de moço bom" demais (um pouco daquela coisa Beatles/Stones, aonde os primeiros eram os rapazes certinhos e os segundos os rebeldes, quando na verdade nenhum deles era só uma coisa ou a outra).

domingo, agosto 03, 2014

André Midani – Música, Ídolos e Poder – Do Vinil ao Download




Nos últimos anos, o lançamento de biografias relacionadas à música têm se tornado mais frequente no mercado editorial brasileiro. Ao mesmo tempo em que parece ter sido descoberto um novo filão, em alguns casos, esses lançamentos acabam resolvendo um atraso sobre uma parte da história da música brasileira sempre relegada aos bastidores. O livro em questão, André Midani – Música, Ídolos e Poder – Do Vinil ao Download foi lançado em 2008 pela Editora Nova Fronteira. 

André Midani, nascido na Síria e criado na França para onde se mudou aos três anos de idade, acabou por se tornar um dos nomes mais importantes da indústria fonográfica brasileira, tendo atuado também no mercado americano e mexicano. Ele chegou ao Brasil em 1955. Antes disso, trabalhou no setor de estoque e como vendedor na gravadora Decca na França. Seu primeiro emprego no Brasil foi na Odeon Records onde esteve ligado diretamente ao lançamento da bossa nova, uma vez que João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes foram contratados pela Odeon. No mesmo período, Lúcio Alves, Dick Farney, Sylvia Telles, Elza Soares, Anísio Silva, Isaura Garcia, Tony e Celly Campelo também gravavam pela Odeon. Depois de um período atuando pela Capitol Records no México e nos EUA, retornou ao Brasil ainda nos anos 1960 para assumir a direção da gravadora Phillips, tendo sido responsável pelo lançamento de discos de vários artistas ligados à Tropicália, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e os Mutantes; além de Elis Regina, Nara Leão, Chico Buarque, Erasmo Carlos, Jorge Ben, Maria Bethânia, João Donato.  Na época, a Philips fez um anúncio no qual apareciam todos seus contratos e trazia a frase: “Só nos falta o Roberto Carlos...Mas ninguém é perfeito”, pelo fato do artista ser contratado da CBS (hoje, Sony Music). Em 1976, foi o responsável pela inserção da gravadora Warner no país, lançando discos de Tom Jobim, Hermeto Pascoal, A Cor do Som, Marina Lima, Belchior, Zezé Motta, Ney Matogrosso, Banda Black Rio, Raul Seixas, Gil, Elis, Paulinho da Viola e Dona Ivone Lara. No início dos anos 1980, a Warner viria a se tornar um dos principais selos a lançar bandas do rock nacional, entre elas: Barão Vermelho, Titãs, Kid Abelha, Marina Lima, Lulu Santos. Em resumo: Midani atuou diretamente na carreira discográfica de quase todos os artistas brasileiros que estiveram na grande mídia dos anos 1960 aos 1980.

O livro, disposto em pequenos capítulos e numa narrativa que não se aprofunda em detalhes, lembra em alguns momentos a despretensiosa autobiografia de Erasmo Carlos, Minha Fama de Mau (que de tão despretensiosa, Erasmo evitou chamar de biografia dizendo que era apenas um apanhado de casos que se passaram em sua vida). Apesar de carregar a alcunha de autobiografia, Midani não entra muito em questões pessoais, de forma que o livro se torna um histórico de sua vida profissional, deixando-o bastante útil para quem tem interessa na história da música brasileira. Ainda que ele não funcione exatamente como o que poderíamos chamar de registro documental, ele traz muitas informações e questionamentos para quem sabe ler as entrelinhas. Em poucas, porém claras palavras, está nele toda a sujeira que permeou as grandes gravadoras: o surgimento e funcionamento do esquema de jabá; o envolvimento da máfia na indústria fonográfica; a perda da direção das gravadoras por “homens da música” para cair nas mãos de tecnocratas; a pirataria de cassetes e CDs que tomou conta do país nos anos 1990, num esquema fabuloso com origem na China. As palavras escritas por Midani deixam um pouco menos bela a história da música popular brasileira e internacional (ok, essa história nunca foi tão bela mesmo), ainda assim, essas palavras precisavam ser ditas e explicam muito de como o mercado chegou a essa miséria musical que hoje se encontra na grande mídia.

Em tempo: não consigo pensar no André Midani e não lembrar os versos de Raul Seixas na música “Conversa Pra Boi Dormi” (“André Sidami só faz confusão, sonhei com ele e mijei no colchão”).

Ainda: (O livro se encontra disponível para download no site de Midani: http://www.andremidani.net/)

domingo, julho 27, 2014

Can't Buy Me Love - Jonathan Gould





Jonathan Gould levou vinte anos no processo de escrita de Cant' Buy Me Love. Além de escritor, ele também é músico profissional. O subtítulo do livro: The Beatles, Britain And America (li a edição original em inglês da Harmony Books de 2007, mas existe uma edição em português do livro lançada no Brasil pela Larousse), dá o mote sobre o qual o livro se baseia. Trata-se de uma análise da carreira e obra dos FabFour com um excelente trabalho de contextualização histórica, tendo como palco principal a Inglaterra e os EUA. Estão no volume, desde o relançamento do polêmico livro O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence ao escandaloso caso do Primeiro Ministro inglês John Profumo, ambos no início dos anos 60 e antes da explosão da Beatlemania, passando pela popularização da TV (tendo sido esta um grande canal para a disseminação e sucesso dos Beatles), e muitas das transformações sociais e políticas que se deram durante o período em que a banda esteve em atividade.

Depois de um breve prólogo, no qual ele fala do histórico dia 7 de fevereiro de 1964 quando os Beatles pisaram pela primeira vez em solo norte-americano, ele surpreende logo no capítulo um, ao iniciar com a letra de Heartbreak Hotel, um dos grandes sucessos de Elvis Presley e traçar um perfil do Rei do Rock. Esse é um dos pontos nos quais o livro tem seu grande valor e um dos destaques dentre a enorme bibliografia sobre os Beatles, o autor escreveu perfis a respeito de várias influências da banda em sua fase inicial, alguns de quem encontramos muito pouco ou quase nenhuma referência facilmente. Nas páginas seguintes, ele fala de Buddy Holly, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Gene Vincent, Bill Halley, Little Richards, Arthur Alexander, o jazzista Django Reinhardt e o guitarrista country Chet Atkins, além de compositores como Jerry Leiber, Mike Stoller, Doc Pomus e Mort Shuman. Gould inicia a história da banda a partir do encontro entre Paul e John em 1957, e a desenvolve, fazendo eventualmente algumas visitas às suas infâncias e dos companheiros de banda, George e Ringo, mas sempre focando na questão musical. Esse é apenas o segundo dos cinquenta e três capítulos do livro, que embora não sejam muito longos, acabam somando 661 páginas ao final do livro.

Quem já leu muito sobre os eternos rapazes de Liverpool nem sempre encontra novidades nas centenas de publicações que surgem sobre eles. A grande virtude do livro de Jonathan Gould é o registro muito bem feito da época, unido ao seu poder de observação nas análises musicais que escreveu advindo de sua sensibilidade musical.