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domingo, agosto 03, 2014

André Midani – Música, Ídolos e Poder – Do Vinil ao Download




Nos últimos anos, o lançamento de biografias relacionadas à música têm se tornado mais frequente no mercado editorial brasileiro. Ao mesmo tempo em que parece ter sido descoberto um novo filão, em alguns casos, esses lançamentos acabam resolvendo um atraso sobre uma parte da história da música brasileira sempre relegada aos bastidores. O livro em questão, André Midani – Música, Ídolos e Poder – Do Vinil ao Download foi lançado em 2008 pela Editora Nova Fronteira. 

André Midani, nascido na Síria e criado na França para onde se mudou aos três anos de idade, acabou por se tornar um dos nomes mais importantes da indústria fonográfica brasileira, tendo atuado também no mercado americano e mexicano. Ele chegou ao Brasil em 1955. Antes disso, trabalhou no setor de estoque e como vendedor na gravadora Decca na França. Seu primeiro emprego no Brasil foi na Odeon Records onde esteve ligado diretamente ao lançamento da bossa nova, uma vez que João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes foram contratados pela Odeon. No mesmo período, Lúcio Alves, Dick Farney, Sylvia Telles, Elza Soares, Anísio Silva, Isaura Garcia, Tony e Celly Campelo também gravavam pela Odeon. Depois de um período atuando pela Capitol Records no México e nos EUA, retornou ao Brasil ainda nos anos 1960 para assumir a direção da gravadora Phillips, tendo sido responsável pelo lançamento de discos de vários artistas ligados à Tropicália, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e os Mutantes; além de Elis Regina, Nara Leão, Chico Buarque, Erasmo Carlos, Jorge Ben, Maria Bethânia, João Donato.  Na época, a Philips fez um anúncio no qual apareciam todos seus contratos e trazia a frase: “Só nos falta o Roberto Carlos...Mas ninguém é perfeito”, pelo fato do artista ser contratado da CBS (hoje, Sony Music). Em 1976, foi o responsável pela inserção da gravadora Warner no país, lançando discos de Tom Jobim, Hermeto Pascoal, A Cor do Som, Marina Lima, Belchior, Zezé Motta, Ney Matogrosso, Banda Black Rio, Raul Seixas, Gil, Elis, Paulinho da Viola e Dona Ivone Lara. No início dos anos 1980, a Warner viria a se tornar um dos principais selos a lançar bandas do rock nacional, entre elas: Barão Vermelho, Titãs, Kid Abelha, Marina Lima, Lulu Santos. Em resumo: Midani atuou diretamente na carreira discográfica de quase todos os artistas brasileiros que estiveram na grande mídia dos anos 1960 aos 1980.

O livro, disposto em pequenos capítulos e numa narrativa que não se aprofunda em detalhes, lembra em alguns momentos a despretensiosa autobiografia de Erasmo Carlos, Minha Fama de Mau (que de tão despretensiosa, Erasmo evitou chamar de biografia dizendo que era apenas um apanhado de casos que se passaram em sua vida). Apesar de carregar a alcunha de autobiografia, Midani não entra muito em questões pessoais, de forma que o livro se torna um histórico de sua vida profissional, deixando-o bastante útil para quem tem interessa na história da música brasileira. Ainda que ele não funcione exatamente como o que poderíamos chamar de registro documental, ele traz muitas informações e questionamentos para quem sabe ler as entrelinhas. Em poucas, porém claras palavras, está nele toda a sujeira que permeou as grandes gravadoras: o surgimento e funcionamento do esquema de jabá; o envolvimento da máfia na indústria fonográfica; a perda da direção das gravadoras por “homens da música” para cair nas mãos de tecnocratas; a pirataria de cassetes e CDs que tomou conta do país nos anos 1990, num esquema fabuloso com origem na China. As palavras escritas por Midani deixam um pouco menos bela a história da música popular brasileira e internacional (ok, essa história nunca foi tão bela mesmo), ainda assim, essas palavras precisavam ser ditas e explicam muito de como o mercado chegou a essa miséria musical que hoje se encontra na grande mídia.

Em tempo: não consigo pensar no André Midani e não lembrar os versos de Raul Seixas na música “Conversa Pra Boi Dormi” (“André Sidami só faz confusão, sonhei com ele e mijei no colchão”).

Ainda: (O livro se encontra disponível para download no site de Midani: http://www.andremidani.net/)

domingo, dezembro 09, 2012

Roberto Carlos - Esse Cara Sou Eu




Quando foi anunciado o lançamento de um EP do Roberto Carlos, o primeiro da era pós-vinil, achei um barato. O formato era o segundo principal da indústria fonográfica até meados dos anos 60, logo depois do single (chamado de compacto simples no Brasil), este disquinho trazia duas canções, normalmente uma candidata a hit que ocupava o lado A (e por isso mesmo o termo single que quer dizer algo como "um", "único" em inglês) e o lado B que tinha quase que a função apenas de completar o disco, sendo que um artista que tivesse duas canções “fortes” usualmente guardava a outra para lançar como lado A de um novo compacto (daí se origina o termo lado B para designar as canções menos conhecidas de um artista, mas certa banda liverpuldiana lançou uma série tão alucinante de compactos nos 60 em que os lados B's acabavam tornando-se tão hits quanto o lado A, assim como também foram fundamentais para que o LP, abreviatura para long-play em inglês se tornasse o formato principal na música popular a partir de seus álbuns repletos de sucessos e mais tarde com o início do que viria a ser os álbuns conceituais, aonde as canções traziam ligações entre si e faziam parte de um todo). Depois do compacto simples vinha o EP (em inglês abreviatura de Extendend Play, no Brasil ele foi batizado de compacto duplo) que trazia quatro faixas e por fim, aparecia o LP (long play) que trazia 12 a 14 faixas no caso da música popular e costumava conter as canções lançadas anteriormente nos compactos. A ideia era que o compacto (single) fosse o foco das vendas que devido ao custo menor tinha mais saída. Para artistas que estavam se lançando era extremamente interessante, pois o menor investimento por parte da gravadora fazia com que ela se encorajasse a viabilizar mais lançamentos e o artista podia "ser testado" concentrado basicamente com a produção de duas músicas, ao invés do lançamento de no mínimo uma dezena a mais de canções. No exterior, o lançamento de singles segue seu curso de maneira regular e como forma de estimular o ouvinte que compra o álbum completo a adquirir também o single é comum que este contenha canções ou versões exclusivas. Por razões que só a Indústria Pornográfica (digo, Fonográfica) Brasileira pode dar, o formato single acabou sendo extinto no Brasil pouco antes de fim da produção de vinil no país, sendo mantido na era CD quase que exclusivamente para CD's de divulgação enviados para rádios e imprensa. O fato é que há uns anos atrás, antes da pirataria e a internet darem um belo chute no traseiro das gravadoras, estas até tentaram investir no formato single CD no Brasil, porém com os discos sendo vendidos praticamente ao mesmo preço do CD "cheio" e o formato não vingou (lembro de lançamentos por aqui de singles do Eric Clapton e das Spice Girls nessa época)...coisas do Brasil. E foi por isso mesmo que achei interessante quando foi anunciado o EP de Roberto Carlos. Por conter duas canções inéditas e duas lançadas anteriormente (também era comum tempos atrás que o EP viesse com essa composição já que as músicas gravadas anteriormente ajudavam a baratear o gasto da produção) viria acompanhado na sequência de um CD inédito "completo" que o público de Roberto anseia há tempos, mas não é o que parece que vai acontecer. RC que durante toda a carreira praticamente lançou um disco por ano (considerando nesse caso o disco original em português, já que desde os anos 70 até início dos 90 seus discos eram vertidos para espanhol e lançados no mundo hispânico), nesses discos Roberto praticamente não cometeu regravações de seu próprio repertório, a primeira se deu em 1975, 17 anos depois do lançamento de seu primeiro compacto quando regravou "Quero que vá tudo pro inferno", lançada originalmente em 1965, essa regravação se justificou pelo fato de na ocasião celebrar os 10 anos do programa Jovem Guarda no qual Roberto se projetou nacionalmente. Depois disso ele só voltaria a revisitar seu repertório em seu primeiro disco ao vivo gravado em 1988, uma curiosidade é que esse disco saiu em junho daquele ano, sendo sabido que seus lançamentos tradicionalmente ocorriam próximos do Natal e no mesmo ano Roberto lançou também seu álbum regular de fim de ano, o disco ao vivo se explica porque naquele ano as vendas de disco andavam fracas e a então CBS (hoje Sony/BMG) resolveu pôr nas prateleiras um novo disco do Rei de forma a atrair o público às lojas, nem se faz necessária a confirmação que o ato deu certo, pois só no lançamento vendeu 750 mil cópias (nos tempos áureos do império das gravadoras o disco anual de RC não vendia menos de um milhão de exemplares).

Nos últimos anos, no entanto o cantor vem evitando e adiando o lançamento de um disco de canções inéditas, acredito que seja fruto de um grande receio por parte do artista que o disco não venda tanto quantos os álbuns ao vivo recheados de regravações que se tornou padrão na indústria brasileira, as gravadoras com isso economizam na produção e apostam no que "deu certo" confiando numa passividade e incapacidade do público de absorver novos trabalhos, soma-se a isso a questão que mesmo boas canções lançadas por RC nesse período acabaram não rendendo a repercussão devida, esse é o caso de "Te Amo Tanto", "Amor Sem Limite" ou "Pra Sempre", isso provavelmente serviu para desencorajar o artista uma vez que trabalhos como o Acústico e o disco em parceria com Caetano Veloso cantando Tom Jobim tiveram vendas muito expressivas (ótimos trabalhos estes, diga-se de passagem), assim como a série de "ao vivos" e ainda o disco Duetos em detrimento aos seus últimos projetos de inéditas. Seria até desumano exigir que o artista hoje lance um disco de inéditas por ano, mas acredito que um bom caminho a seguir seria o investimento em projetos realmente artísticos e caprichados como foi o disco com Caetano. Roberto poderia explorar um repertório que o agrada e que ele não visitou muito, quem sabe um disco de standards do jazz com coisas do repertório de Sinatra, Tony Bennett ou Chet Baker? Por que ele não grava um disco com canções do maior compositor brasileiro segundo ele, Chico Buarque? Clássicos da música brasileira? Cartola, quem sabe? Uma visita ao repertório rockeiro do início da carreira que ele já até gravou como Elvis ou Beatles? Mais do que simples regravações essas sim seriam registros históricos, um favor dele emprestar sua voz a grandes canções. Mas o cara é muito na dele e mesmo suas apostas mais ousadas, são muito, mas muito calculadas.

Enfim, chegando ao tal EP que traz as inéditas "Esse Cara Sou Eu" e "Furdúncio" e é completado com "A Mulher Que Eu Amo" e "A Volta", as quatro músicas carregam em comum o fato de terem sido veiculadas em telenovelas da Rede Globo (que tem um contrato de exclusividade com o artista para que ele grave seu Especial anual  de fim de ano, não se apresente em outros canais e faça eventuais participações em alguns programas da emissora), sendo que as duas inéditas estão presentes numa mesma novela que está no ar atualmente. Em outras épocas, quando suas vendas chegavam a superar a marcas de 2,5 milhões por ano de cada lançamento, Roberto não permitia que canções na sua voz entrassem em trilhas de novela, um fruto da alta competência com a qual RC sempre gerenciou sua carreira, a intenção era evitar a superexposição. Hoje os tempos são outros, Roberto ainda vende muito, mas não é mais líder absoluto quando se trata dos novos lançamentos, o lamentável é que praticamente todos que o têm superado em vendas são absolutamente medíocres artisticamente, sejam os padres-pops-"cantores" ou as "bailarinas"-"cantoras"-"modelos"-"atrizes". O lançamento atual, porém conseguiu o que canções de qualidade similar ou até melhores lançadas nos últimos dez anos pelo cantor não conseguiram, um hit inquestionável: "Esse Cara Sou Eu". A música caiu no gosto do povo de maneira arrebatadora, há tempos uma nova canção de Roberto não ia parar na boca de todos, mesmo aqueles que não fazem parte de seu público habitual, levando o disco rapidamente ao topo das paradas mesmo antes de seu lançamento através das reservas ou compras pelo site iTunes e a venda de um milhão de exemplares. A queda nas vendas de discos na última década poderia sugerir uma queda de prestígio do artista, ledo engano, seus shows continuam concorridos como sempre em qualquer lugar do mundo, não raramente ele têm sido obrigado a abrir datas extras para suas apresentações devido à procura por ingressos, assim como seu já tradicional cruzeiro que tem suas vagas esgotadas com mais de um ano de antecedência.

Depois de tão longo prefácio, vamos ao disco:

Como ouvinte e colecionador chato e detalhista não gostei da baixa qualidade do papel do encarte, o motivo mais provável deve ser econômico para o disco ser vendido por um preço mais acessível como está ocorrendo. Tabelado como R$9,90, ele na verdade poderia ser mais barato, uma vez que vários álbuns "cheios" se encontram no mercado por esse preço.
  

1. ESSE CARA SOU EU

Composição solitária de Roberto Carlos, apesar de não ser das suas letras mais inspiradas, dá uma sensação de que ele já cantou todos os versos em outras canções, o Robertão convencido de “Detalhes” que sacramentava que a amante não o esqueceria a qualquer custo reaparece aqui para dizer “Eu sou o cara certo pra você/ Que te faz feliz e que te adora” (usando o eu lírico claro, como confessou o compositor de maneira mais humilde “esse é o cara que eu gostaria de ser”) o verso que traz o título resolve bem o fim das estrofes e é nesse gancho que se apóia seu sucesso. Já a estrutura musical da canção embora seja bem simples apresenta um arranjo de Tutuca Borba sob medida criando climas com interessantes dinâmicas que não deixa a baladinha lenta cair na monotonia, para a estrofe final aquela subidinha de tom clássica em canções do gênero, a sonoridade geral lembrou muito os discos do RC dos anos 80. Participam da faixa os músicos da banda de Lulu Santos, Chocolate na bateria e Jorge Aílton no baixo, além de Tutuca nos teclados e o próprio Roberto se arriscando mais uma vez ao piano e tem ainda uma guitarra não creditada no encarte que lembra muito o estilo de Paulinho Ferreira da RC9 (banda do Roberto) e que vem gravando com ele regularmente.

2. FURDÚNCIO

Parceria da dupla dinâmica Roberto e Erasmo se arriscando num funk melody, estilo que chamou a atenção de Roberto a partir da audição da canção “Se Ela Dança, Eu Danço” de MC Leozinho que rendeu um surpreendente dueto no Especial de RC em 2006. Uma qualidade inegável do intérprete Roberto Carlos é a capacidade de cantar diversos estilos sempre os adaptando muito bem ao seu estilo (basta dar uma passeada pela sua discografia e ver como ele gravou rocks, blues, valsas, tangos, boleros, sambas, bossas, pop, etc.) e dessa vez não foi diferente. Um arranjo recheado com efeitos eletrônicos, uma guitarra funky gravada por Ringo Moraes, teclados de Tutuca Borba e arranjos e teclado de DJ Batutinha. Na letra Roberto e Erasmo acabam por quase repetir um verso “Pra ver de perto aquela coisa bonita/Que me assanha, me provoca, me agita” que remete à canção "Símbolo Sexual" (1985) onde ele canta: “Você me fala tanta coisa bonita/Me acaricia, me provoca, me agita”, não sei se foi intencional, quase uma citação, mas ficou bem próximo e seria estranho que eles não tivessem percebido a semelhança, afora isso a letra resulta bem mais criativa que “Esse Cara Sou Eu”, a presença de Erasmo certamente tem a ver com isso. Interessante observar que apesar de os músicos da banda de Lulu Santos terem participado da canção anterior, essa gravação é que lembra um pouco o estilo de Lulu, o solo com um efeito de teclado simulando uma cítara acentua a semelhança. Ah, e ainda tem o assobio do cara durante o solo, ele também manda muito bem nesse quesito!


3. A MULHER QUE EU AMO

Canção lançada originalmente em 2009 na trilha sonora de mais uma telenovela e apesar desse apoio extra na divulgação acabou não emplacando. Instrumental também sob o comando de Tutuca Borba que executa piano, cordas (no teclado) e assina o arranjo.

4. A VOLTA

A primeira gravação dessa composição foi registrada pelos Vips em 1965 e foi um grande sucesso na época, a gravação de Roberto em 2004 também integrou a trilha de uma novela global, foi incluída como faixa bônus na segunda edição do disco “Roberto Carlos Ao Vivo No Pacaembu” e no álbum de 2005. Destaque para a guitarra à la Dire Straits tocada por Paulinho Ferreira e os vocais de Roberto que registrou também aquela bela segunda voz como só ele sabe fazer. Completando a ficha técnica tem Jurim Moreira na bateria, Dedé Marquez na percussão, Dárcio Ract no baixo, Paulinho Galvão no violão e Tutuca Borba nos teclados e piano.


Ainda: Um vídeo postado num blog sobre Roberto Carlos do meu amigo Baratta mostra a primeira vez que RC cantou "Esse Cara Sou Eu" em um show (para conferir clique AQUI). Segundo um site (que não me lembro agora), a nova canção teria sido a mais aplaudida da noite. Espero que sirva de estímulo para que ele continue apostando em material inédito (ou regravações relevantes)!    

domingo, junho 10, 2012

Suíte Gargalhadas – Cento e tantas histórias engraçadas sobre música e músicos – Henrique Cazes




A dica da vez é o livro Suíte Gargalhadas de Henrique Cazes que tem o subtítulo Cento e tantas histórias engraçadas sobre música e músicos.  Lançado pela Editora José Olympio em 2002, o livro não parece ter tido outras edições, embora seja bem interessante e engraçado como se propõe, mas ainda pode ser encontrado em alguns sites de livrarias. Ser músico por si só nesse país já é uma piada e o cavaquinista Henrique Cazes conseguiu garimpar e selecionar uma boa coleção de histórias e casos que ele juntou nesse livro de crônicas curtas que ocupam cada uma no máximo duas páginas. Vários nomes famosos do cenário musical brasileiro aparecem no livro, sendo que o autor não se preocupou em procurar confirmar a veracidade dos fatos, o que vale é que o caso seja engraçado, entre eles Noel Rosa, Aracy de Almeida, Paulo Moura, Radamés Gnattali, Nelson Cavaquinho, Wilson das Neves, Tom Jobim, Chico Buarque, Nelson Gonçalves, Zé Kéti, Cazuza e Angêla Rô Rô.

O universo de Henrique Cazes é o samba e o choro, e esse ambiente é o que prevalece na maioria dos casos, mas escolhi uma crônica que fala sobre rock para publicar aqui e dar uma idéia do livro. Segue abaixo:

ENTERRO DE GUITARRISTA (Extraído do livro "Suíte Gargalhadas - Cento e tantas histórias engraçadas sobre música e músicos", Editora José Olympio - Rio de Janeiro, 2002, pág. 75)

A morte de um guitarrista de rock brasiliense foi um trauma pra turma roqueira do planalto. No enterro a rapaziada compareceu em peso e, com seus trajes extravagantes, criava um contraste curioso com a família do rapaz, composta por sisudos funcionários federais.

Quando o caixão desceu, o pai do rapaz quis dizer alguma coisa mas sua emoção não deixou. Pediu então a um guitarrista amigo de seu filho que dissesse algumas palavras de despedida.

O guitarrista continuou de cabeça baixa, com os cabelos encobrindo o rosto, e foi logo dizendo:

- Pô, cara, esse lance de falar não é comigo. O meu lance é tocar...

Os outros membros da turma ali presentes deram o incentivo que faltava:

- Fala aí, você era o mais chegado a ele.

Diante da situação o guitarrista se aproximou da sepultura e respirou fundo, fitou o caixão e ficou pensando no que iria dizer. De repente, alisou a madeira de lei do caixão e saiu com essa:

- Pô, maneira a case do cara, aê.

Pra quem não está acostumado, case é como os músicos de rock e jazz chamam o estojo do instrumento.

sexta-feira, maio 25, 2012

Paul McCartney - Kisses On The Bottom





Paul McCartney é ousado, anunciou o fim dos Beatles e lançou um disco gravado em casa de forma totalmente experimental por pura diversão num gravadorzinho de quatro canais. Paul McCartney é louco, depois do fim dos Wings, sua segunda banda com a qual também alcançou sucesso mundial se mantendo nos topos das paradas, gravou mais um disquinho experimental baseado em sintetizadores e música eletrônica que fugia de seu estilo característico. Isso para não falar das composições de aspirações eruditas como o Liverpool Oratorio, o poema sinfônico Standing Stone e a mais recente composição para ballet Ocean´s Kingdom. Agora ele aparece dando a cara para bater mais uma vez lançando um disco com releituras de clássicos do jazz e do pop americano que ouvia na sua infância. Paul McCartney adora se divertir, e isso é o que ele fez nesse disco que apesar da grande produção soa mais como um projeto despretensioso e prazeroso que um cara que já fez tudo o que ele fez na carreira pode se dar ao luxo (e direito) de fazer, a começar pelo trocadilho do título do álbum extraído da letra da música de abertura I'm Gonna Sit Right Down que ao mesmo tempo que quer dizer "beijos na parte de baixo" ou "beijos no final", no caso de uma carta, pode ser interpretado como "beijos na bunda". O álbum tem produção de David LiPuma que produziu entre outros, Miles Davis, George Benson, Marcus Miller, João Donato, Tom Jobim, João Gilberto e Diana Krall que toca no disco acompanhada de sua banda, além das participações do guitarrista John Pizzarelli e seu pai Bucky Pizzarelli (ex-guitarrista da banda de Frank Sinatra), Eric Clapton e Stevie Wonder e a London Symphony Orchestra.


  1. I'm Gonna Sit Right Down (Fred E. Ahlert/Joe Young)  - piano, guitarra e bateria fazem o riff completado com o baixo solo na introdução. Mas não se enganem, não é Paul quem toca o instrumento. Esse é o seu primeiro álbum apenas como cantor. Num primeiro momento a voz de Paul não me agradou muito no disco, gosto de cantores com uma voz um pouco mais grave nesse estilo, os meus prediletos quase óbvios são Tony Bennett e Frank Sinatra. Paul canta mais suave e com leve falsete no disco, fazendo uma linha mais Fred Astaire que ele cita como inspiração no álbum e é um dos seus primeiros ídolos de infância, inclusive já homenageado por Paul na canção You Gave Me The Answer.

  1. Home (When Shadows Fall) (Peter van Steeden/Jeff Clarkson/Harry Clarkson) - Destaque para a orquestração e guitarra elegante com seus arpégios dialogando com a orquestra e a voz de Paul.

  1. It's Only a Paper Moon (Harold Arlen/E. Y. Harburg/Billy Rose) - A mesma elegante guitarra com um belo timbre surge nessa canção com ritmo mais suingado que caiu muito bem na voz do Paul, um solo de violino passeia pela canção num jogo de pergunta-resposta com a voz e o assobio de Paul no meio da música.

  1. More I Cannot With You (Frank Loesser) - Uau! Que guitarra! Paul sussurra a letra com arranjo suave e minucioso apresentando orquestra de cordas mais uma vez.

  1. The Glory of Love (Billy Hill) - O contrabaixo introduz a canção e acompanha a voz de Paul com exclusividade durante quase todo o primeiro minuto da canção. Um solo sutil de guitarra no meio da canção.


  1. We Three (My Echo, My Shadow and Me) (Sammy Mysels/Dick Robertson/Nelson Cogane) - Sem dúvidas, o grande destaque instrumental fica mesmo por conta da guitarra que sempre aparece muito bem ao longo do disco, para contrabalançar Paul faz uma de suas melhores interpretações nessa faixa.

  1. Ac-Cent-Tchu-Ate the Positive (Arlen/Johnny Mercer)  - Gravada por Ella Fitzgerald, essa é outra canção mais suingadinha do álbum que são as que eu acho que soaram melhor na voz do Sir predileto da casa.

  1. My Valentine (Paul McCartney) - Composição inédita de Paul McCartney, assim como fez em Run Devil Run (outro álbum de releituras, mas enfocando o Rock'n'Roll dos anos 50) no qual além das releituras incluiu algumas canções inéditas de sua lavra seguindo o estilo das outras canções do disco . Quando o guitarrista de plantão se ausenta da banda, quem surge para executar um solo de violão de nylon é ninguém mais, ninguém menos que Eric Clapton.

  1. Always (Irving Berlin) - A sensação ao ouvir o disco pela primeira vez era que se tratava de uma apresentação ao vivo que ia aquecendo e melhorando com o decorrer. Embora gravado em estúdio e sem saber a ordem fiquei com essa sensação nas duas primeiras audições, desse ponto para frente o disco me parece soar melhor. Grande interpretação e outro belo solo de guitarra.

  1. My Very Good Friend the Milkman (Harold Spina/Johnny Burke) - Não bastasse cantar como ninguém e executar diversos instrumentos com extrema competência, Paul ainda tem mais essa qualidade: assobia muito bem! E esse é o destaque nessa canção junto com o solo de trompete.

  1. Bye, Bye, Blackbird (Ray Henderson/Mort Dixon) - Essa já foi registrada por outro beatle antes, Ringo Starr a gravou em Sentimental Journey, seu álbum de releituras de standards do jazz também. O piano aparece de maneira mais efetiva nessa canção.

  1. Get Yourself Another Fool (Haywood Henry/Tucker) - Engraçado, quando comecei a ouvir essa música que apresenta um solo de guitarra na introdução pensei: parece muito com o timbre e as frases de Clapton! E isso antes de saber quem em definitivo havia gravado o instrumento na faixa que inclusive já tem um pezinho mais no blues.

  1. The Inch Worn (Loesser) - Um violão de aço surge apresentando a canção de clima melancólico que remete mais à Inglaterra do que aos EUA, tanto que até parece uma composição de Paul.

  1. Only Our Hearts (McCartney)  - A outra inédita de Paul no disco (gostei mais até do que My Valentine) não destoa do restante do trabalho. Com participação especial de Stevie Wonder que faz um solo de gaita fecha bem o disco e dá vontade de colocá-lo para tocar mais uma vez.

Paul disse que o disco é para ser ouvido em casa depois de um dia de trabalho acompanhado de uma xícara de chá ou de uma taça de vinho. Se fosse comparar esse disco com uma garrafa de vinho não diria que ele é fruto de uma safra especial como um Ram 71, um Band On The Run 73 ou ainda um Flaming Pie 97, diria (como dizem os chatinhos) que ele é bastante honesto, bom para o dia-a-dia.

Em tempo: O disco Ram que apareceu aqui na minha lista de discos de 2011 acaba de ser relançado em edições especiais em vinil e cd. Sonho de besta: será que Paulie andou lendo o rockngeral?

Ainda: Não que esse blog tenha algum compromisso com tempo, mas escrevi sobre o disco na ocasião de seu lançamento em fevereiro, na verdade pouco antes dele sair mesmo, a partir de um mp3 vazado, a demora para postar aqui foi porque não queria comentá-lo simplesmente a partir da audição do som tosco do áudio mp3, mas como ainda não o adquiri resolvi publicar assim mesmo. Pelo menos ele não precisou esperar 40 anos como o Ram para ser comentado aqui. (Como se fizesse falta, rs).

domingo, março 04, 2012

Só Pra Lembrar: Roberto Carlos – Mineirinho, Belo Horizonte 24/09/2011



Show do Rei é sempre um acontecimento, experiência quase religiosa, esse no caso ainda veio com o peso de ser o primeiro após a histórica apresentação em Jerusalém.  Boa parte do espetáculo seguiu o ritual tradicional, abertura instrumental com a orquestra executando trechos de canções de Roberto que adentra o palco cantando “Emoções”, um dos maiores clássicos de seu repertório, após um “boa noite” com velhas frases conhecidas e decoradas pelo público que às vezes até as fala antes dele como: “que prazer rever vocês, mais uma vez aqui em... (cole aqui o nome da cidade e/ou estado onde ele esteja se apresentando)...” ou “queria dizer muitas coisas no início desse show, mas acho que vou dizer melhor cantando...” dessa vez ele emendou essa frase com a música “Eu te amo, te amo, te amo”, na turnê anterior, essa era a deixa para “Como é grande o meu amor por você” que só foi aparecer no finalzinho do roteiro desse show. E aí começaram alguns problemas técnicos que o fizeram se retirar do palco e que cito no final da postagem. Roberto retornou e cantou “Além do Horizonte”, “Amor Perfeito”, “Cama e Mesa”, de banquinho e violão fez a também já tradicional versão de “Detalhes” (ainda sofrendo com os problemas técnicos no som). Vieram  então “Desabafo”, “O Portão” (que andava meio sumida do repertório), depois a canção que fez para sua mãe, “Lady Laura” que ele diz não cantar hoje com a mesma alegria, porém com mais amor, após sua partida em 2010. Na sequência, “Nossa Senhora”, uma das mais belas canções religiosas composta pela dupla Roberto e Erasmo e “Pensamentos” que eu considero o grande momento do show, canção que ele não cantava há muito tempo, praticamente desde a época de seu lançamento em 1982. “Mulher Pequena”, “Proposta”, “O Côncavo e o Convexo” e “Cavalgada” deram a tônica da faceta de canções mais sensuais de Roberto compostas a partir de meados da década de 1970. Voltando mais dez anos no tempo ele fez um medley com sucessos da época Jovem Guarda, “É Proibido Fumar”, “Namoradinha de Um Amigo Meu”, “Quando” (que eu ainda acho que merece ser interpretada na íntegra em algum próximo show dele), ”E Por Isso Eu Estou Aqui” e “Jovens Tardes De Domingo”. Para fechar a apresentação Roberto cantou “Como É Grande O Meu Amor Por Você”, “É Preciso Saber Viver” e “Jesus Cristo” que acompanhou a habitual distribuição de rosas do cantor para sua platéia.

Quem já foi a um show do Roberto Carlos, acompanhou pela TV ou assistiu a um de seus DVD´s sabe do alto nível técnico da sua produção com ênfase na qualidade do som, a despeito disso, durante quase todo o show, Roberto, banda e público sofreram com problemas no sistema de som, microfonias, problemas no volume, uma série de transtornos inimagináveis numa apresentação dele que levou o artista a se retirar do palco em alguns momentos à espera que os problemas fossem solucionados. O Ginásio do Mineirinho é famoso pelo péssimo som que costuma resultar durante apresentações lá, eu mesmo já deixei de ir a uma apresentação do Deep Purple no local por ter uma experiência anterior em outro show da banda no qual não consegui entender absolutamente nada do som para no dia seguinte ler no jornal que o mesmo aconteceu com Ian Gillan, vocalista da banda. Ainda assim, já assisti a uma série de shows nacionais e internacionais no local, sempre com som sofrível, em alguns dias eu diria que ele esteve “menos pior”, porém nos show do Roberto o som sempre foi perfeito, assustadoramente perfeito, mais ainda em se tratando desse espaço. Desde 1991 suas apresentações na cidade com regularidade praticamente anual têm sido quase todas lá, em raras exceções ele cantou em outros espaços de BH nesse período. Eu sempre duvidei de ditados como “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar” e acabei tirando a prova nesse show, apesar de todo o cuidado, do tratamento luxuoso dado à produção de Roberto Carlos, em sua última apresentação na cidade em 2009 no mesmíssimo lugar, o som também apresentou problemas similares. Já ouvi dizer que as passagens de som para uma apresentação do Roberto chegam há durar dez horas ou mais, um dos motivos da precisão sonora que ouvimos durante seus concertos, junto com a qualidade dos equipamentos e excelência da equipe técnica. Enfim, deu saudades das apresentações anteriores a essa e mesmo do som impecável que pude conferir no Theatro Municipal do Rio de Janeiro na ocasião de seu show ao lado de Caetano Veloso homenageando Tom Jobim ou no Teatro do Minascentro aqui mesmo em BH no ano de 1996. O show foi levado até o fim graças à força e carisma do Rei, acredito que por parte da platéia ninguém saiu de lá muito decepcionado com isso, mas não diria o mesmo dele, por todo o cuidado com o qual trata seu trabalho buscando sempre oferecer o melhor ao seu público, Roberto deve ter ficando bastante chateado com essas falhas técnicas durante a apresentação. Como músico (e atuando em produções infinitamente menores), sofro com isso quase toda vez que vou tocar (acreditem, as reclamações de Tim Maia na maioria das vezes não eram de brincadeira ou jogo de cena). Belo Horizonte necessita de um local ideal para apresentações com público superior a quinze mil pessoas (como é o caso de Roberto Carlos, já que parece ser inviável que ele faça uma temporada de várias noites em teatros para públicos menores na cidade) e isso segue nos deixando fora do roteiro de grandes artistas internacionais que devido ao custo de produção precisam de grandes platéias para cobrir os gastos, afinal, Paul McCartney ou Roger Waters pelo menos cogitaram passar por aqui?


Foto: 1. Roberto Carlos distribuindo rosas no fim do show (imagem extraída de uma filmagem do telemóvel); 2. O autor do blog que vos escreve com uma "rosa do Rei" em punho e o grande Antônio Wanderley, pianista da RC9 (banda do Roberto Carlos) desde os anos sessenta.

Aproveito para deixar aqui o link do show de 50 anos de carreira de Roberto Carlos sobre o qual escrevi em 2009 e que está publicado no Site Portal Clube do Rei: http://www.clubedorei.com.br/Articles/detail.asp?iData=631&iCat=823&iChannel=2&nChannel=Articles

domingo, fevereiro 26, 2012

Só Pra Lembrar: Mike Stern – Praça Floriano Peixoto, Belo Horizonte 09/09/2011


                                         

Anunciado sem nenhum alarde, fiquei sabendo através de uma notinha de jornal que o jazzista norte-americano Mike Stern, um dos meus guitarristas prediletos tocaria numa praça pública aqui em Belo Horizonte como convidado do Trio Corrente.  O tipo de show que não dá nem para pensar em perder. Como tinha um tempo livre entre o fim do expediente de trabalho e o show, fui mais cedo para o local para encontrar com um amigo. Chegando lá vi de longe que tinham alguns músicos no palco passando o som assistidos por uma meia dúzia de pessoas, entre elas, meu amigo Evandro Viana. No palco já estava o próprio Mike Stern, tranquilão com aquele seu sorriso típico de boas-vindas ao lado dos integrantes do Trio Corrente, Fábio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo) e Edu Ribeiro (bateria).  Algo não ia bem, havia um problema com as caixas do PA que estavam sem som, em meio ao movimento dos técnicos que apressavam em tentar ajeitar as coisas, os músicos arriscavam umas notinhas, trechos de uma música ou outra, rolou uma versão “tímida” de “Wave” do Tom Jobim. As coisas pareciam que não iriam se ajustar, apesar da aparente tranqüilidade dos músicos no palco. Mike acabou tomando a frente na regulagem e foi o responsável pelo ótimo som que rolou durante a apresentação, do palco ele pedia alguns toques para as pessoas que estavam lá acompanhando a passagem, entre elas eu, perguntando como estava o som da guitarra, se dava para ouvir o piano. De repente, eu estava ali ajudando um dos músicos que mais admiro a passar o som. Quase duas horas de “aula-extra” vendo (ouvindo) o cara regular o som da banda, timbrar sua guitarra, tocando umas frases aleatórias à procura do som ideal que ficou exatamente como se ouve nas suas gravações com aquele chorus inconfundível.

Na hora do show a praça ficou lotada, Mike Stern desceu para assistir da platéia a abertura feita só pelo trio que depois o chamou ao palco para uma performance arrasadora (que pude conferir da primeira fila) numa mistura de jazz e chorinho muito explorada pelo Trio Corrente com o fusion de “pegada” rock feito pelo guitarrista. Não é todo dia que rola um programa assim quase ao acaso, show no fim do dia numa praça em pleno meio de semana. Com meu inglês escalafobético troquei umas palavras com Mr. Stern antes do show confirmando a minha visão dele como um cara gente finíssima, comentei que já tinha visto um show seu aqui mesmo em BH em 1999 e consegui a proeza de esquecer como se dizia “mesmo” em inglês. Cheguei em casa e pensei seriamente em copiar a palavra cem vezes numa folha de papel: SAME, SAME, SAME, SAME, SAME...



Dá para ver pela imagem no alto que eu ainda não aprendi a fotografar (e a câmera do telemóvel não ajuda muito); na foto debaixo, clicados por Evandro Viana, eu e Mike Stern que todo simpático pediu para ver a imagem que considerou “a good picture!”.


Aos leitores deixo indicados dois discos brilhantes de Mike Stern, Give And Take (1997) e Voices (2001).






sábado, dezembro 10, 2011

Feriado em BH



Oito de dezembro. Relembro aqui mais uma vez do dia das mortes de John e Tom e do show do Police no Maracanã em 2007. Dessa vez longe da cidade maravilhosa, me encontro na minha amada/odiada Belo Horizonte. Feriado, dia da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição, apesar disso, um dia de trabalho para mim. Eu gosto de BH em dia de feriado, cidade vazia, ruas com pouco movimento, trânsito quase parado, é bom para quem gosta de vagar pelas ruas e ver coisas que não se vê na correria dos dias comuns. Depois da labuta, preguiça de voltar para casa, o clima sugere um “buteco” no fim da tarde e lá vou. Rua da Bahia no centro, um bar que embora tenha sido o mais freqüentado nos últimos tempos eu nem sei o nome e não faço força para saber, para mim é o bar da Bahia e pronto. É assim que os amigos que o freqüentam comigo também o chamam. Porém, hoje a cerveja é solitária, como gosto de beber às vezes. Sentado, cerveja servida, Miles Davis no headphone e umas mexidas na internet pelo smartphone, coisa inimaginável para mim até uns poucos meses atrás, quando nem sequer usava celular (ainda prefiro o nome do bichinho no português de Portugal, “telemóvel”, tentei adotar o termo aqui, mas sempre soa estranho pros outros e eu ainda precisava explicar às vezes o que era). Sozinho sempre se observa mais, o movimento das outras mesas, os prédios do outro lado da rua e a gente mesmo. O garçom pergunta pelo amigo que entre outros sempre vai lá comigo, explico que hoje eu tinha ido por acaso, no último minuto antes de pegar o ônibus de volta para casa. Vem-me em mente a idéia de fazer uma música falando de um feriado em BH, o começo da letra me surge na cabeça, mas não tenho ânimo para continuar, penso que se meu amigo e parceiro musical Eduardo estivesse presente provavelmente faríamos a letra na hora como já fizemos outras vezes em mesa de bar e esse tema inclusive seria perfeito para ele, acho que ele entenderia (entende) muito bem o que eu gostaria de dizer nessa letra e tentarei dizer nesse texto, embora ache que não dá para exprimir de forma muito direta sem empréstimos poéticos.

De repente, bate uma saudade da Praça da Liberdade, penso comigo: “feriado, deve estar vazia com uma meia dúzia de punks por lá tocando violão no coreto”, como não custava muito chegar até lá, bastava subir alguns quarteirões a mais da rua, me pus a andar. No caminho, opa, um engarrafamento! Hein? Feriado em BH e um engarrafamento enorme? Mais para cima vejo um bom número de pessoas descendo a rua e avistando a praça de longe me dei conta da recém inaugurada iluminação de natal. Ah tá, todo mundo aproveitou o feriado para ir lá ver, e até que o trem ficou bonito, segurei meu lado chato para não ficar questionando quanto custou aquilo tudo, em algumas árvores umas luzes fazem um efeito de neve caindo (o eterno desejo caboclo de ser europeu, norte-americano ou qualquer país “chique” onde neve). Devido aos efeitos diuréticos da cerveja precisei de um banheiro, dei umas duas voltas pela praça procurando um sanitário químico e não achei nenhum, se tinha, estava bem escondido, tão bem escondido quanto o governador que se mandou do Palácio do Governo que fica na praça para a tal Cidade Administrativa lá nos confins do Judas, perto da cidade e Aeroporto de Confins. Super estratégico, fica longe do povo, das manifestações e ainda é uma ótima rota de fuga caso seja necessária algum dia. Enfim, a procura por um banheiro acabou me levando até a Biblioteca Pública que também fica pertinho da praça e devido a alguma atividade especial estava aberta àquela hora da noite. Estava com saudades de lá também, não do banheiro, mas da biblioteca, costumava passar um bom tempo durante a adolescência lá, hoje tento ir, mas o tempo não permite muito e os curtos rendimentos do trabalho pelo menos têm dado para comprar alguns livros que normalmente eu tomaria emprestados lá, ainda que também gostasse de freqüentar a sala de jornais e revistas e ficar lendo por lá. É um dos lugares que mais gosto na cidade.

No retorno até a praça testemunho a enorme presença de camisas do Cruzeiro em detrimento de nenhuma do Atlético-MG, reflexos da histórica goleada de 6 a 1 aplicada pelo time celeste sobre o arqui-rival no fim de semana na última rodada do Campeonato Brasileiro. Aparecem duas camisas do Grêmio e uma do Corinthians que se sagrou campeão esse ano no dia da morte de um de seus (e meus) maiores ídolos, o Dr. Sócrates...grande perda. Junto com o Zico ele foi um dos grandes heróis da minha infância que não jogou no meu time (o Cruzeiro Esporte Clube para quem não sabe). É a vida. Pego outra cerveja, como um acarajé nada baiano e volto para casa quase triste. Quase feliz.

sábado, dezembro 15, 2007

The Police para quem precisa


Oito de dezembro, fatídico dia do assassinato de John Lennon em 1980 e da morte de Tom Jobim em 1994, a partir de 2007 a data passa a ter um significado musical positivo, pelo menos para mim e para quem teve a oportunidade de estar presente no maravilhoso show do The Police no Rio de Janeiro. Que porrada na cara!!! Depois de apagarem as luzes e os alto-falantes ecoarem a voz de Bob Marley cantando “Get Up, Stand Up”, às 21h30min em ponto eles entraram no palco como previsto (ah, se os shows brasileiros tivessem essa pontualidade). Antes passei pelo martírio que foi entrar no Estádio Jornalista Mário Filho, vulgo Maracanã (ah, se os shows brasileiros NÃO tivessem essa desorganização). Já acostumado com esse tipo de situação procurei manter o bom humor.

Logo na primeira música do show "Message In A Bottle" a banda já mostrou a que veio e sinceramente só essa abertura já teria valido o show. Na sequência vieram "Sincronicity II" e "Walkin On The Moon" que seguraram o clima empolgado da primeira canção e depois "Voices Inside My Head", "When The World Is Running Down" e "Don´t Close To Me" enquanto a banda desfilava toda a sua elegância musical. Sting arriscava umas frases em português nos intervalos das canções como: "obrigado", “que saudade do Brasil” ou "vocês querem cantar comigo?", até com certa fluência, incomum nos roqueiros ingleses que baixam na terra de Machado de Assis, por certo, resultado do antigo namoro com o Brasil através das amizades com o já citado compositor Tom Jobim ou os tempos de Floresta Amazônica com o Cacique Raoni. E o deleite seguia com "Driven To Tears", "Hole In My Life", "Truth Hits Everybody". Apesar do longo intervalo de mais de vinte anos a banda manteve no palco uma unidade ímpar numa combinação perfeita de técnica e emoção, com a bateria precisa de Copeland, os grooves de baixo marcantes e dançantes de Sting, e as belas texturas e solos de guitarra de Summers, tudo executado de forma bastante sedutora. Dispensáveis comentários para o equipamento, som, telões e todo o aparato técnico.

Outra coisa que descobri ou só agora me liguei para isso, é o fato de como o show deve ser diferente de acordo com o local na plateia que você se encontra, não apenas pela visibilidade do palco ou pelo som, mas sim pelas pessoas ao redor, nesse aspecto eu imagino que não haveria em todo o Estádio posicionamento melhor, cercado por verdadeiros fãs da banda que dançavam e cantavam todas as canções, entre elas uma garotinha de uns 12 anos e uma italianinha para lá de empolgada. Lulu Santos estava certo: “cada público tem o show que merece!”. Acho que os únicos que não mereciam é a já comum área VIP (formada por pseudo-celebridades que sequer conhecem o trabalho dos artistas e vão mais para aparecer na coluna social no dia seguinte ou em matérias tolas na TV dizendo que não conheciam a banda, ou cantando uma frase errada de uma canção que por ventura tenha sido tema de novela) que ficou numa posição privilegiada não permitindo um acesso muito próximo ao palco dos admiradores reais e que pagaram um alto preço pelo ingresso embora cada centavo tenha valido a pena. 

A banda ainda tocou uma saraivada de hits alucinantes um após o outro, “Every Little Thing She Does Is Magic” (minha predileta), “Wrapped Around Your Finger”, “De Do Do Do De Da Da Da”, “Invisible Sun”, “Walking In Your Footsteps”, “Can't Stand Losing You”, “Roxanne”, “King Of Pain” (numa versão que superou de longe a original) e “So Lonely” para encerrar no bis com “Every Breathe You Take” sempre com os improvisos que só um trio tem liberdade pra fazer, e mais do que liberdade eles têm uma extrema competência.

Ainda que pareça clichê, no show realizado no Rio durante o verão, tudo cheirava a alegria, carnaval e sensualidade. Se dois amigos chamaram o show de Roger Waters em fevereiro de orgasmo estético posso afirmar que esse show também foi um orgasmo, mas sexual mesmo.