segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Engenheiros do Hawaii - Uma Breve Viagem Discográfica: Os Anos Gessinger, Licks & Maltz

1. Prefácio

Longe Demais das Capitais (1986)



Também chamada pelos fãs de Santíssima Trindade, a junção de Humberto Gessinger, Augusto Licks e Carlos Maltz é a formação que podemos chamar de clássica dos Engenheiros do Hawaii e aquela que me fez gostar da banda, ainda hoje a minha predileta na seara nacional (levando-se em conta essa formação!) e por obra do acaso ainda não tinha aparecido aqui no rockngeral. Juntos eles lançaram sete discos, do segundo ao oitavo de sua discografia, porém julguei importante incluir o primeiro disco, antes da entrada do guitarrista Augusto Licks, ainda com Humberto Gessinger na guitarra e Marcelo Pitz no contrabaixo e completada por Carlos Maltz na bateria. A idéia inicial era comentar os oito discos em um único post como fiz em Uma Breve Viagem Discográfica com a banda TheCranberries, mas como achei que as resenhas dos discos dos Engenheiros ficariam bem maiores, resolvi optar por dividir os oito discos em duas postagens, tentando controlar ao máximo para não ficarem muito longos, mas logo nos comentários do primeiro disco, vi que não ia dar, decidi fazer uma postagem por disco mesmo, cujas publicações pretendo intercalar a publicações com outros temas (ainda não defini a periodicidade que irei postando sobre a discografia dos EngHaw, talvez uma por mês), então, sem mais delongas,  “voltemos enfim ao início”:
 
Humberto Gessinger (guitarras e vocal), Carlos Maltz (bateria, percussão e voz) e Marcelo Pitz (contrabaixo e voz) conheceram-se na faculdade de Arquitetura em Porto Alegre. Segundo a lenda, eles juntaram-se especificamente para tocar numa das festas da faculdade que aconteceria na noite de 11 de janeiro de 1985, no mesmo momento em que ocorria a estréia do Rock In Rio I, pois devido a uma greve as aulas se estenderam até o período de férias e os estudantes de lá não poderiam ir à Cidade do Rock no Rio de Janeiro para conferir as apresentações. Carlos Stein que depois viria a se tornar guitarrista da banda Nenhum de Nós também participou dessa formação pré-discográfica da banda que se iniciou com uma participação numa coletânea intitulada Rock Grande do Sul, na qual os Engenheiros participaram com as canções Sopa de Letrinhas e Segurança que reapareceriam em seu primeiro disco, porém com a segunda canção apresentando uma versão diferente. Embora seja o primeiro da banda, esse foi o último dos oito discos que eu adquiri e segundo o simpático vendedor que me atendeu, tratava-se do melhor disco deles. Longe Demais das Capitais não poderia abrir com outra canção que não fosse Toda Forma De Poder, embora o disco ainda não apresentasse o que seria conhecido como o som que se tornaria característico da banda, essa letra já trazia a marca de Humberto Gessinger com seu estilo crítico e político, tímido e agressivo, acidentalmente intelectual e aparentemente arrogante que tanto irritou a “crítica” dita especializada da época. Versos como o de abertura “Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada” ou “Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada” atestam isso. Ela conta com a participação do cantor e compositor gaúcho Nei Lisboa (com quem o futuro guitarrista da banda Augusto Licks tocava, tendo inclusive algumas parcerias) nos vocais e acabou tornando-se o hit do álbum, além de aparecer na trilha sonora da telenovela da Rede Globo, Hipertensão. Segurança reaparece aqui com versão diferente da lançada anteriormente na coletânea Rock Grande do Sul como disse anteriormente, tanto na letra quanto no arranjo instrumental e revela uma temática mais juvenil que apareceria em outras canções do disco. No saxofone, a participação especial de Manito d’Os Incríveis, banda da qual num futuro não muito distante os Engenheiros regravariam a versão da música italiana “Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e os Rolling Stones” relançada pelos Incríveis no auge da Jovem Guarda com grande êxito que seria repetido com a gravação dos Engenheiros. Segurança também foi incluída na trilha sonora da telenovela Corpo Santo da extinta TV Manchete, essa sempre foi uma forma muito eficaz de divulgar a música popular no Brasil e a gravadora da banda, RCA, aproveitou para incluir mais uma canção dos novos pupilos no esquema. Eu Ligo Prá Você, assim como Segurança e uma série de outras canções no disco tem uma influência do ska que vinha de uma grande repercussão especialmente por causa da banda The Police. Nossas Vidas tem mais ainda um pé no reggae, devido a essa fonte comum de influência, os Engenheiros chegaram a ser associados aos Paralamas do Sucesso que já vinham nessa onda desde o início da década quando apareceram no cenário nacional em 1983 e segundo Gessinger a própria gravadora pretendia lançá-los como uma espécie de “Paralamas dos Pampas”. “Eu já mandei em mandar tudo pro inferno, mas não pensei que fosse tão difícil ficar sozinho numa noite de inverno” suscita outra influência que apareceria vez por outra nas letras de Humberto que é a dupla Roberto e Erasmo Carlos. Fé Nenhuma é um pouco mais pesada e apresenta um bom riff de guitarra distorcida na introdução reforçado por uma das boas linhas de baixo de Pitz. Com seus versos “Não levo fé nenhuma em nada, mas ninguém tem o direito de me achar reacionário, não acredito no teu jeito revolucionário”, a música provavelmente ajudou a criar uma equivocada imagem niilista que a banda tinha. Beijos Prá Torcida com uma levada que chega a ser quase um charleston (se é que não é) é mais um embrião do estilo de composição de Humberto que começava a se desenhar, mais especificamente em relação às letras: “Jogam bombas em Nova York, jogam bombas em Moscou/Como se jogassem beijos prá torcida depois de marcar um gol”. 

Todo Mundo É Uma Ilha, título de uma canção que depois viraria verso da música Terra De Gigantes renega a teoria do poeta John Donne de que ninguém é uma ilha, canção de um quase-amor juvenil, daqueles que nunca davam (dão) em nada (“Não me leve a mal, mas eu não to legal, quero ficar sozinho”) com o refrão “Você não sabe o que eu sinto, você não sabe quem eu sou” remetendo mais uma vez a Roberto e Erasmo em Eu Sou Terrível (“você não sabe de onde eu venho, o que eu sou, nem o que tenho”). A canção título fala da distância da cidade natal da banda, Porto Alegre em relação ao eixo Rio-São Paulo (“estamos longe demais das capitais”), hoje me soa estranho (talvez na época eu não me desse conta) uma banda batizar um álbum ou uma música que fosse com um título como esse, o que só gerou mais má interpretação sobre a banda, mas ainda assim, eles se justificariam dizendo no release do disco:  “viemos falar da nossa aldeia pra quem quiser ouvir”. Sweet Begônia é outro reggaezinho agradável do disco, com seu texto autodepreciativo (“você diz que eu tenho pouco quase nada a oferecer, tudo que eu faço você diz que está errado, você me acha um fracasso e eu não acho isso engraçado”) traçava um pouco do perfil da banda e de seus ouvintes. Humberto se sai muito bem no solo cheio de swing da canção. Nada A Ver também apresenta alguns versos que antecipam o estilo de letras de Humberto, cheio de imagens, citações de ícones pop, jogos de palavras e aliterações: “Um cão sem dono, uma árvore no outono, o nono mês de gravidez, eu perco o sono ao som de Yoko Ono e telefono prá vocês”. Crônica foi uma canção com certo destaque em shows na época, mas que depois de uma sumida do repertório acabou reaparecendo no disco Filmes de Guerra, Canções de Amor de maneira muito forte e se tornou fixa por um bom tempo no setlist da banda, “Todo mundo já tomou a Coca-Cola e a Coca-Cola já tomou conta da China, toda cara luta por uma menina e a Palestina luta prá sobreviver”, exemplifica mais uma vez a mistura maluca e tímida de política/amor que tantas vezes reapareceria na obra dos Engenheiros. Sopa de Letrinhas fecha essa primeira empreitada da banda e mais uma vez "dá um olá" para obra de Roberto e Erasmo “nosso amor é pós-moderno, eu quero que você se aqueça nesse inverno”, ela é assinada em parceria com Marcelo Pitz, as demais canções do disco são assinadas exclusivamente por Humberto Gessinger. 

O disco produzido pelo guitarrista Reinaldo B. Brito, tem algo de obscuro desd’ a capa apresentando uma paisagem campestre, o visual dos integrantes não muito à vontade e nenhum pouco descolado que não se parece com as músicas que em sua maior parte, com suas levadas alegres de ska/reggae, não se parecem com as letras bucólicas (Humberto diria que ska era a única coisa que ele sabia tocar na guitarra). Apesar de ainda não ter um instrumental vigoroso como eles apresentariam nos discos seguintes com a entrada de Augusto Licks na banda, ele é competente e tem aquela cara de primeiro disco super sincero de uma banda de rock que ainda não sabe o que quer, nem aonde quer chegar e talvez mesmo se recuse a querer chegar a algum lugar.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Keith Richards – Talk Is Cheap (1988)



Faz um bom tempo que eu queria comentar sobre esse álbum aqui, um “senhor” disco de Rock’n’Roll na sua mais completa essência. Talk Is Cheap é o primeiro álbum solo lançado por Keith Richards, o cara que é definitivamente a alma e o som dos Rolling Stones, digo isso sem o mínimo receio de estar errado, pois basta ouvir os trabalhos solos de Mick Jagger, por exemplo, para ver como soam um pop distante dos Stones, enquanto o disco de Keith traz em si a sonoridade da banda, a pulsação, o blues, a malandragem, tudo está lá. Guitarras, baixo e bateria em primeiro plano com um tecladinho aqui e ali, uma voz rouca e rascante que não se preocupa em soar perfeita (e se assim o fosse, não seria tão Rock’n’Roll).

O disco abre com Big Enough, música cheia de balanço com uma levada quebrada, baixo suingado tocado por Bootsy Collins e o sax de Maceo Parker dando um toque jazzístico improvisando por toda a faixa que conta ainda com o órgão de Bernie Worrell. Take Is So Hard é puro Stones, lembrando muito Start Me Up do disco Tattoo You de 1981 e Mixed Emotions do Steel Wheels que seria lançado no ano seguinte (1989), noutras palavras: um rockaço de primeira! Struggle segue na mesma linha, rock balançado e alto astral. I Could Have Stood You Up é um shuffle com destaque para o piano de Jonnhy Johnson e o sax de Bobby Keys, também músico de apoio dos Stones, assim como Chuck Leavell que aparece no órgão, além do ex-stone Mick Taylor na guitarra. Depois da porrada é chegada a hora da balada e assim como fez várias vezes nas suas incursões vocais nos Stones (vide Slipping Away, The Worst, entre outras), Keith manda a belíssima Make No Mistake em dueto com a cantora Sarah Dash, balada como só um verdadeiro rockeiro sabe fazer, para tomar um scotch e pensar naquela guria especial (ou talvez em todas elas). Mas para não ficar se lamentando, até porque o Rock nasceu para exorcizar a tristeza, Keith fecha o lado A (estou comentando a partir do vinil, ok?) com You Don’t Move dando aquele “chega pra lá” na mesma guria (ou nas mesmas).

O lado B vem na mesma pegada “isso que é Rock de verdade” com How I Wish, segue com a levada meio bebop de Rockwhile e emenda com a pulsante Whit It Up ambas com belos backing vocals de Sarah Dash e Patti Scialfa. Outra balada muito boa e que só reafirma o talento do compositor Keith Richards é Locked Away que tem uma leve sonoridade country reforçada pelo violino Michael Doucet. O disco encerra com It Means A Lot mantendo a linha do mesmo rock de classe que Keith desfila por todo o álbum. Todas as composições são assinadas por Keith em parceria com o baterista Steve Jordan com quem também dividiu a produção. Keith em momento algum parece tentar seguir a linha dos Stones, ele simplesmente está sendo ele mesmo, o que acontece é que ser ele mesmo é ser os Stones!

Keith Richards guitarra e voz
Charley Drayton – baixo
Bootsy Collins – baixo em Big Enough
Joey Spampinato – baixo em I Could Have Stood You Up e Rockwhile
Jimmi Kinnard – baixo em Make No Mistake
Steve Jordan – bateria, percussão e backing vocals
Ivan Neville – piano e teclados
Johnny Johnson – piano em I Could Have Stood You Up
Chuck Leavell – órgão em I Could Have Stood You Up
Bernie Worrel – órgão em Big Enough e You Don´t Move Me e clavinete em Make No Mistake e Rockawhile
Waddy Watchtel – violão guitarra, slide guitar e assistente de produção
Mick Taylor – guitarra em I Could Have Stood You Up
Sarah Dash – backing vocals e voz em Make No Mistake
Patti Scialfa – backing vocals
Michael Doucet – violino em Locked Away
Stanley “Buchwheat” Dural – acordeom em You Don´t Move Me, Rockwhile e Locked Away
Bobby Keys – saxophone tenor em I Could Have Stood You Up e Whip It Up
The Memphis Horns – metais
Willie Mitchell – arranjos de metais


Primeiro e demorado post do ano que começa com minha promessa de tentar manter uma regularidade maior nas postagens, como diz o título do disco do Keith, talk is cheap (falar é fácil) por isso só digo que tentarei, tentarei...e se a mensagem de ano novo de 2012 aos leitores do rockngeral foi inspirada no álbum Ram do Paul McCartney buscando otimismo, a dessa ano fica por conta desse disco do Keith: então vamos deixar de conversa fiada e fazer mais! Grande abraço a todos e um ótimo ano!



domingo, dezembro 09, 2012

Roberto Carlos - Esse Cara Sou Eu




Quando foi anunciado o lançamento de um EP do Roberto Carlos, o primeiro da era pós-vinil, achei um barato. O formato era o segundo principal da indústria fonográfica até meados dos anos 60, logo depois do single (chamado de compacto simples no Brasil), este disquinho trazia duas canções, normalmente uma candidata a hit que ocupava o lado A (e por isso mesmo o termo single que quer dizer algo como "um", "único" em inglês) e o lado B que tinha quase que a função apenas de completar o disco, sendo que um artista que tivesse duas canções “fortes” usualmente guardava a outra para lançar como lado A de um novo compacto (daí se origina o termo lado B para designar as canções menos conhecidas de um artista, mas certa banda liverpuldiana lançou uma série tão alucinante de compactos nos 60 em que os lados B's acabavam tornando-se tão hits quanto o lado A, assim como também foram fundamentais para que o LP, abreviatura para long-play em inglês se tornasse o formato principal na música popular a partir de seus álbuns repletos de sucessos e mais tarde com o início do que viria a ser os álbuns conceituais, aonde as canções traziam ligações entre si e faziam parte de um todo). Depois do compacto simples vinha o EP (em inglês abreviatura de Extendend Play, no Brasil ele foi batizado de compacto duplo) que trazia quatro faixas e por fim, aparecia o LP (long play) que trazia 12 a 14 faixas no caso da música popular e costumava conter as canções lançadas anteriormente nos compactos. A ideia era que o compacto (single) fosse o foco das vendas que devido ao custo menor tinha mais saída. Para artistas que estavam se lançando era extremamente interessante, pois o menor investimento por parte da gravadora fazia com que ela se encorajasse a viabilizar mais lançamentos e o artista podia "ser testado" concentrado basicamente com a produção de duas músicas, ao invés do lançamento de no mínimo uma dezena a mais de canções. No exterior, o lançamento de singles segue seu curso de maneira regular e como forma de estimular o ouvinte que compra o álbum completo a adquirir também o single é comum que este contenha canções ou versões exclusivas. Por razões que só a Indústria Pornográfica (digo, Fonográfica) Brasileira pode dar, o formato single acabou sendo extinto no Brasil pouco antes de fim da produção de vinil no país, sendo mantido na era CD quase que exclusivamente para CD's de divulgação enviados para rádios e imprensa. O fato é que há uns anos atrás, antes da pirataria e a internet darem um belo chute no traseiro das gravadoras, estas até tentaram investir no formato single CD no Brasil, porém com os discos sendo vendidos praticamente ao mesmo preço do CD "cheio" e o formato não vingou (lembro de lançamentos por aqui de singles do Eric Clapton e das Spice Girls nessa época)...coisas do Brasil. E foi por isso mesmo que achei interessante quando foi anunciado o EP de Roberto Carlos. Por conter duas canções inéditas e duas lançadas anteriormente (também era comum tempos atrás que o EP viesse com essa composição já que as músicas gravadas anteriormente ajudavam a baratear o gasto da produção) viria acompanhado na sequência de um CD inédito "completo" que o público de Roberto anseia há tempos, mas não é o que parece que vai acontecer. RC que durante toda a carreira praticamente lançou um disco por ano (considerando nesse caso o disco original em português, já que desde os anos 70 até início dos 90 seus discos eram vertidos para espanhol e lançados no mundo hispânico), nesses discos Roberto praticamente não cometeu regravações de seu próprio repertório, a primeira se deu em 1975, 17 anos depois do lançamento de seu primeiro compacto quando regravou "Quero que vá tudo pro inferno", lançada originalmente em 1965, essa regravação se justificou pelo fato de na ocasião celebrar os 10 anos do programa Jovem Guarda no qual Roberto se projetou nacionalmente. Depois disso ele só voltaria a revisitar seu repertório em seu primeiro disco ao vivo gravado em 1988, uma curiosidade é que esse disco saiu em junho daquele ano, sendo sabido que seus lançamentos tradicionalmente ocorriam próximos do Natal e no mesmo ano Roberto lançou também seu álbum regular de fim de ano, o disco ao vivo se explica porque naquele ano as vendas de disco andavam fracas e a então CBS (hoje Sony/BMG) resolveu pôr nas prateleiras um novo disco do Rei de forma a atrair o público às lojas, nem se faz necessária a confirmação que o ato deu certo, pois só no lançamento vendeu 750 mil cópias (nos tempos áureos do império das gravadoras o disco anual de RC não vendia menos de um milhão de exemplares).

Nos últimos anos, no entanto o cantor vem evitando e adiando o lançamento de um disco de canções inéditas, acredito que seja fruto de um grande receio por parte do artista que o disco não venda tanto quantos os álbuns ao vivo recheados de regravações que se tornou padrão na indústria brasileira, as gravadoras com isso economizam na produção e apostam no que "deu certo" confiando numa passividade e incapacidade do público de absorver novos trabalhos, soma-se a isso a questão que mesmo boas canções lançadas por RC nesse período acabaram não rendendo a repercussão devida, esse é o caso de "Te Amo Tanto", "Amor Sem Limite" ou "Pra Sempre", isso provavelmente serviu para desencorajar o artista uma vez que trabalhos como o Acústico e o disco em parceria com Caetano Veloso cantando Tom Jobim tiveram vendas muito expressivas (ótimos trabalhos estes, diga-se de passagem), assim como a série de "ao vivos" e ainda o disco Duetos em detrimento aos seus últimos projetos de inéditas. Seria até desumano exigir que o artista hoje lance um disco de inéditas por ano, mas acredito que um bom caminho a seguir seria o investimento em projetos realmente artísticos e caprichados como foi o disco com Caetano. Roberto poderia explorar um repertório que o agrada e que ele não visitou muito, quem sabe um disco de standards do jazz com coisas do repertório de Sinatra, Tony Bennett ou Chet Baker? Por que ele não grava um disco com canções do maior compositor brasileiro segundo ele, Chico Buarque? Clássicos da música brasileira? Cartola, quem sabe? Uma visita ao repertório rockeiro do início da carreira que ele já até gravou como Elvis ou Beatles? Mais do que simples regravações essas sim seriam registros históricos, um favor dele emprestar sua voz a grandes canções. Mas o cara é muito na dele e mesmo suas apostas mais ousadas, são muito, mas muito calculadas.

Enfim, chegando ao tal EP que traz as inéditas "Esse Cara Sou Eu" e "Furdúncio" e é completado com "A Mulher Que Eu Amo" e "A Volta", as quatro músicas carregam em comum o fato de terem sido veiculadas em telenovelas da Rede Globo (que tem um contrato de exclusividade com o artista para que ele grave seu Especial anual  de fim de ano, não se apresente em outros canais e faça eventuais participações em alguns programas da emissora), sendo que as duas inéditas estão presentes numa mesma novela que está no ar atualmente. Em outras épocas, quando suas vendas chegavam a superar a marcas de 2,5 milhões por ano de cada lançamento, Roberto não permitia que canções na sua voz entrassem em trilhas de novela, um fruto da alta competência com a qual RC sempre gerenciou sua carreira, a intenção era evitar a superexposição. Hoje os tempos são outros, Roberto ainda vende muito, mas não é mais líder absoluto quando se trata dos novos lançamentos, o lamentável é que praticamente todos que o têm superado em vendas são absolutamente medíocres artisticamente, sejam os padres-pops-"cantores" ou as "bailarinas"-"cantoras"-"modelos"-"atrizes". O lançamento atual, porém conseguiu o que canções de qualidade similar ou até melhores lançadas nos últimos dez anos pelo cantor não conseguiram, um hit inquestionável: "Esse Cara Sou Eu". A música caiu no gosto do povo de maneira arrebatadora, há tempos uma nova canção de Roberto não ia parar na boca de todos, mesmo aqueles que não fazem parte de seu público habitual, levando o disco rapidamente ao topo das paradas mesmo antes de seu lançamento através das reservas ou compras pelo site iTunes e a venda de um milhão de exemplares. A queda nas vendas de discos na última década poderia sugerir uma queda de prestígio do artista, ledo engano, seus shows continuam concorridos como sempre em qualquer lugar do mundo, não raramente ele têm sido obrigado a abrir datas extras para suas apresentações devido à procura por ingressos, assim como seu já tradicional cruzeiro que tem suas vagas esgotadas com mais de um ano de antecedência.

Depois de tão longo prefácio, vamos ao disco:

Como ouvinte e colecionador chato e detalhista não gostei da baixa qualidade do papel do encarte, o motivo mais provável deve ser econômico para o disco ser vendido por um preço mais acessível como está ocorrendo. Tabelado como R$9,90, ele na verdade poderia ser mais barato, uma vez que vários álbuns "cheios" se encontram no mercado por esse preço.
  

1. ESSE CARA SOU EU

Composição solitária de Roberto Carlos, apesar de não ser das suas letras mais inspiradas, dá uma sensação de que ele já cantou todos os versos em outras canções, o Robertão convencido de “Detalhes” que sacramentava que a amante não o esqueceria a qualquer custo reaparece aqui para dizer “Eu sou o cara certo pra você/ Que te faz feliz e que te adora” (usando o eu lírico claro, como confessou o compositor de maneira mais humilde “esse é o cara que eu gostaria de ser”) o verso que traz o título resolve bem o fim das estrofes e é nesse gancho que se apóia seu sucesso. Já a estrutura musical da canção embora seja bem simples apresenta um arranjo de Tutuca Borba sob medida criando climas com interessantes dinâmicas que não deixa a baladinha lenta cair na monotonia, para a estrofe final aquela subidinha de tom clássica em canções do gênero, a sonoridade geral lembrou muito os discos do RC dos anos 80. Participam da faixa os músicos da banda de Lulu Santos, Chocolate na bateria e Jorge Aílton no baixo, além de Tutuca nos teclados e o próprio Roberto se arriscando mais uma vez ao piano e tem ainda uma guitarra não creditada no encarte que lembra muito o estilo de Paulinho Ferreira da RC9 (banda do Roberto) e que vem gravando com ele regularmente.

2. FURDÚNCIO

Parceria da dupla dinâmica Roberto e Erasmo se arriscando num funk melody, estilo que chamou a atenção de Roberto a partir da audição da canção “Se Ela Dança, Eu Danço” de MC Leozinho que rendeu um surpreendente dueto no Especial de RC em 2006. Uma qualidade inegável do intérprete Roberto Carlos é a capacidade de cantar diversos estilos sempre os adaptando muito bem ao seu estilo (basta dar uma passeada pela sua discografia e ver como ele gravou rocks, blues, valsas, tangos, boleros, sambas, bossas, pop, etc.) e dessa vez não foi diferente. Um arranjo recheado com efeitos eletrônicos, uma guitarra funky gravada por Ringo Moraes, teclados de Tutuca Borba e arranjos e teclado de DJ Batutinha. Na letra Roberto e Erasmo acabam por quase repetir um verso “Pra ver de perto aquela coisa bonita/Que me assanha, me provoca, me agita” que remete à canção "Símbolo Sexual" (1985) onde ele canta: “Você me fala tanta coisa bonita/Me acaricia, me provoca, me agita”, não sei se foi intencional, quase uma citação, mas ficou bem próximo e seria estranho que eles não tivessem percebido a semelhança, afora isso a letra resulta bem mais criativa que “Esse Cara Sou Eu”, a presença de Erasmo certamente tem a ver com isso. Interessante observar que apesar de os músicos da banda de Lulu Santos terem participado da canção anterior, essa gravação é que lembra um pouco o estilo de Lulu, o solo com um efeito de teclado simulando uma cítara acentua a semelhança. Ah, e ainda tem o assobio do cara durante o solo, ele também manda muito bem nesse quesito!


3. A MULHER QUE EU AMO

Canção lançada originalmente em 2009 na trilha sonora de mais uma telenovela e apesar desse apoio extra na divulgação acabou não emplacando. Instrumental também sob o comando de Tutuca Borba que executa piano, cordas (no teclado) e assina o arranjo.

4. A VOLTA

A primeira gravação dessa composição foi registrada pelos Vips em 1965 e foi um grande sucesso na época, a gravação de Roberto em 2004 também integrou a trilha de uma novela global, foi incluída como faixa bônus na segunda edição do disco “Roberto Carlos Ao Vivo No Pacaembu” e no álbum de 2005. Destaque para a guitarra à la Dire Straits tocada por Paulinho Ferreira e os vocais de Roberto que registrou também aquela bela segunda voz como só ele sabe fazer. Completando a ficha técnica tem Jurim Moreira na bateria, Dedé Marquez na percussão, Dárcio Ract no baixo, Paulinho Galvão no violão e Tutuca Borba nos teclados e piano.


Ainda: Um vídeo postado num blog sobre Roberto Carlos do meu amigo Baratta mostra a primeira vez que RC cantou "Esse Cara Sou Eu" em um show (para conferir clique AQUI). Segundo um site (que não me lembro agora), a nova canção teria sido a mais aplaudida da noite. Espero que sirva de estímulo para que ele continue apostando em material inédito (ou regravações relevantes)!