sexta-feira, junho 14, 2013

"entre a verdade e o rock inglês" - André Guimarães e Robert Moura





"entre a verdade e o rock inglês" é um show que farei em parceria com meu amigo André Guimarães. Nos encontramos no palco dezenas de vezes, sempre fazendo participações especiais em shows de bandas do outro (nunca se concretizaram as tentativas de montar uma banda juntos), mas esse show talvez tenha mais a ver com as outras dezenas de vezes que nos encontramos na platéia mesmo, assistindo e ouvindo as canções dos caras que incluímos no repertório. 

Esse show foi planejado há cerca de sete anos, mas acabou ficando pelo caminho, embora na época tenhamos chegado a fazer alguns ensaios. De uma conversa furtiva num fim de noite via internet decidimos tirar o projeto da gaveta e na mesma semana começamos os novos ensaios. O título "entre a verdade e o rock inglês" que não existia na época, é um verso extraído da canção A Revolta dos Dândis,I de Humberto Gessinger, presente no disco homônimo da banda Engenheiros do Hawaii e atenta para o fato de que a maior parte do repertório é composto canções de artistas do rock inglês, sobrando ainda espaço para o rock americano e mesmo de brasileiros que compuseram no idioma de Shakespeare.

Por que somente canções em inglês? Essa foi a pergunta que a gente se fez enquanto tentávamos relembrar o repertório escolhido há quase uma década atrás. Não conseguimos achar a resposta, mas constatamos que continuamos gostando das mesmas músicas. Entre canções prediletas de cada um, foram incluídas algumas estranhas ao repertório habitual de ambos, mas que acreditamos que possam soar interessantes. Sozinhos no palco, a gente se alterna entre violões, viola, guitarras e vocais (aliás, essa é uma das raras ocasiões em que eu, desafinado que sou me permito cantar).

No fundo, o show é só uma desculpa para recordar velhos tempos, tocar algumas de nossas canções prediletas e rever amigos com os quais só nos encontramos praticamente em shows. Simples e direto como o Rock'n'Roll.




Local: Teatro da Maçonaria, Av. Brasil 478, Sta. Efigênia (clique AQUI e veja o mapa) 

Data: 14/06 (sexta-feira)

Horário: 21h

Ingressos: R$ 20, 00/Meia: R$10,00

*Ingressos antecipados:

Alaúde Escola de Música - R. Pe. Eustáquio 2276/sl07 (31) 3464 8874/8546 4608;

Teatro da Maçonaria (segunda, quarta e sexta de 9h às 15h,a partir de 13/05) - Av. Brasil 478, Sta. Efigênia (31)3213 4959;
Bar da Sandrinha - R. São Felipe, 21 (em frente ao Independência).



sábado, junho 01, 2013

Engenheiros do Hawaii - Uma Breve Viagem Discográfica: Os Anos Gessinger, Licks & Maltz

3. Capítulo II

Ouça o Que Eu Digo: Não Ouça Ninguém (1988)



Mais um daqueles discos dos Engenheiros do Hawaii que já causava choque na crítica começando pelo título: “Ouça O Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém”. E é a faixa título que abre o disco mais uma vez, dando nova guinada e uma leve “modernizada” no som da banda. Com boa execução nas rádios, foi das principais responsáveis por ter mantido a média de cerca 130 mil discos vendidos que a banda conseguiu com seus três primeiros discos. “Cidade Em Chamas” traz outro ótimo registro de guitarra de Augusto Licks que também já começava a caracterizar um estilo que ele desenvolveria na banda,cheio de dedilhados com timbres limpos e belos solos num equilíbrio perfeito entre técnica, feeling e melodia. A letra provoca o ouvinte (ou seria a crítica?): “se o que eu digo não faz sentido, não faz sentido ficar ouvindo, mas o que eu digo não é mentira, não faz sentido ficar mentindo”. Humberto Gessinger ainda repete o verso “eu sei que eles têm razão, mas a razão é só o que eles têm” (presente na música "Quem Tem Pressa Não Se Interessa" do disco anterior) se autocitando, outra marca registrada das suas letras. Em “Somos Quem Podemos Ser”, Humberto cria uma de suas melhores e emblemáticas  letras ("sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão"..."quem duvida da vida tem culpa, quem evita a dúvida também tem") uma espécie de continuação de “Terra de Gigantes” (também presente no disco anterior), inclusive o arranjo é feito também só com guitarras e violão dedilhados e entre as novidades no som da banda, traz um solo de guitarra sintetizada do Licks. “Sob o Tapete” é a primeira música da parceria de Humberto e Augusto que se revelaria super produtiva, instrumental vigoroso que não deixa mais dúvidas que o trio havia criado um estilo, a bateria agressiva de Carlos Maltz, longe do swing brazuca, os baixos pulsantes e melodiosos de Humberto (segundo Augusto Licks, como se fosse um guitarrista tocando o baixo) e a guitarra virtuosa de Augustinho fugindo das simples execução de acordes para tocar frases melódicas junto com a voz em alguns momentos, facilmente saindo de um acorde distorcido para um dedilhado com um bom gosto extremo na escolha de timbres e efeitos e uma sonoridade mais “modernosa” do que ele havia criado até então. “?Desde Quando?” tem um riff de guitarra hipnótico nos primeiros versos da canção, passando por slides na sequência e power chords no refrão, na letra Humberto manda um “Rock’n’Roll não é o que se pensa e o que se pensa não é o que se faz, o que se faz, só faz sentido quando vivemos em paz” em mais um dos jogos de palavras que ele usaria tão bem ao longo da carreira. “Nunca Se Sabe” carrega uma bela citação ao escritor Hermann Hesse: “me obrigue a morrer, mas não me peça pra matar”, carregada de lirismo, fica entre uma balada que queria ser um rock e um rock que queria ser uma balada.

“A Verdade A Ver Navios” tem o mesmo riff da introdução de “Terra De Gigantes” e uma letra contundente de Humberto, “Na hora H, no dia D, na hora de pagar pra ver, ninguém diz o que disse (não era bem assim)”, a guitarra tocada por Humberto tem aqueles acordes de quarta que a banda usaria em várias canções como já havia feito em "A Revolta dos Dândis I". Augustinho realiza um bonito solo de piano, e no final tem aquele mesmo riff que aparece em “Vozes” (do disco A Revolta dos Dândis) e “Várias Variáveis”  (do álbum homônimo) dando uma idéia de continuidade, ligando os discos e músicas. “Tribos & Tribunais”, outra parceria de Gessinger/Licks tem boas frases de guitarra e baixo dobrando a melodia, outra grande performance instrumental do trio. Na letra, Humberto explora as aliterações que também seriam constantes em seus escritos ("todo dia a gente inventa e fantasia, a gente tenta todo dia, feito cegos, egos em agonia"). “Pra Entender” também segue a linha de “Tribos & Tribunais”, “Sob O Tapete” e “Além dos Out-doors” canções que foram criando a sonoridade característica do trio, Licks brinca com a guitarra durante toda a canção, aos guitarristas de plantão fica o meu conselho: na falta de idéias de como fazer uma base original, ouça-a! “?Quem Diria?” retoma a canção romântica “à la Humberto Gessinger” e traz mais um solo genial de Augustinho. “Variações Sobre Um Mesmo Tema “é dividida em três partes, a primeira composta apenas por um Humberto tem como destaque a condução de tambores tocada por Carlos e a guitarra slide de Licks com Humberto Gessinger mais uma vez se autocitando aonde lembra a letra da faixa título do disco em questão e de “Infinita Highway”. A “Parte 2”, com letra de Humberto e música de Augusto Licks traz o único registro de Augusto na banda como voz principal e tem acompanhamento solitário de uma guitarra tocada com o efeito de volume. A “Parte 3” assinada apenas por Licks é uma vinhetinha musical com uma sonoridade pesada que seria quase uma milonga heavy metal. Outra novidade é a presença de Maluly na produção. A capa, a exemplo da anterior é novamente dividida em nove partes, dessa vez o fundo é vermelho dando sequência à trilogia com as cores da bandeira o Rio Grande do Sul, (Augustinho já aparece com sua indefectível camisa social branca fechada até o último botão que seria a predileta e mais usada nos shows da banda), as letras são escritas numa irritante fonte gótica e as engrenagens brotam na capa e contracapa do disco, agora não tinha mais volta para a banda e o público, era ame ou odeie.

sábado, maio 11, 2013

Paul McCartney: Out There - Mineirão – Belo Horizonte/MG, 04/05/2013


Então nos encontramos novamente...

Depois de rodar algumas cidades do Brasil para assistir aos seus shows, pela sexta vez no período de quatro anos, tive o prazer de ver Paul McCartney ao vivo, dessa vez na minha cidade natal. E pela sexta vez consecutiva me surpreendo com sua performance. Talvez por ter sido na minha cidade, a aventura parece ter sido bem menor, ao mesmo tempo em que a distância para chegar pareça ter sido inexplicavelmente maior. Divagações à parte, o ponto alto do show foi a renovada no repertório da nova turnê intitulada “Out There”. Ele já abriu a noite com a completamente inesperada “Eight Days A Week”, canção dos Beatles que ele nunca havia executado ao vivo e que tinha John Lennon nos vocais principais, ele sempre priorizou nos shows as canções nas quais ele fazia a primeira voz, com raras exceções como o medley “Strawberry Fields Forever/Help/Give Peace A Chance” que tocou algumas vezes nos anos 1990 em ocasiões de homenagem ao parceiro, só nas últimas turnês a partir de 2004 ele se permitiu cantar algumas dessas canções como “I’ll Get You”, “Please Please Me” e mais recentemente “A Day In The Life” que tinham John como vocalista principal. Ele pulou dos Beatles para os Wings logo na canção seguinte, com a super rockeira “Junior´s Farm”“All My Loving”, a primeira a ser apresentada dentre canções sempre esperadas nos shows foi cantada a plenos pulmões pela multidão de mais de 55 mil pessoas que lotou o estádio (desde o jogo entre Cruzeiro e Argentinos Juniors na despedida do jogador Sorín em 2009 eu não via o Mineirão tão bonito). Daí para frente veio uma série de surpresas, “Listen To The Man Said” com Paul tocando contrabaixo ao invés do piano como fazia na turnê Rockshow dos anos 70, última vez que a música freqüentou o setlist de um show seu, foi outra que deixou o público cativo do músico embasbacado. “Let Me Roll It” também se manteve no setlist, e desde que comecei a ir a shows do Paul se mostra realmente muito forte e revigorante ao vivo, mais do quando a ouço em disco agora. “Paperback Writer” veio logo na sequência. A primeira visita ao piano foi para tocar “My Valentine” presente no disco Kisses On The Bottom lançado no passado e dedicada à atual esposa Nancy Shevell. Ele emendou com “Nineteen Hundred and Eighty-Five”, também da fase Wings e a antológica “The Long And Winding Road”, umas das mais belas (entre tantas) baladas compostas por ele, assim como a destruidora “Maybe I’m Amazed”, dedicada à ex-esposa Linda McCartney que veio logo a seguir com uma execução que deixa evidente a capacidade técnica da excelente banda que vem o acompanhando há dez anos. 

O tradicional set acústico dessa vez iniciou-se com “Hope Of Deliverance” com todos os músicos da banda tocando violão, exceção para o baterista Abe Laboriel que ficou no baixo, durante a música foi perceptível algumas falhas no sistema de som no PA, o áudio ficou um pouco embolado e baixo, nada que estragasse a empolgação da platéia. “We Can Work It Out” teve novamente versão com toda a banda tocando junto, ao contrário das últimas vezes em que Paul a executou sozinho ao violão. “Another Day” foi outra que voltou ao repertório depois de muitos anos e mais uma vez arrebatou a platéia e teve Paul tocando um violão de 12 cordas, instrumento que ele também não empunhava ao vivo há tempos. “And I Love Her”, canção que nunca falta em seus shows no Brasil, teve uma reação tão forte do público que eu acredito que ela continuará a incluindo sempre em seus shows aqui. Em “Blackbird”, uma plataforma montada a frente do palco deixou Paul isolado num nível bem mais alto em relação à altura normal do palco, lá de cima executou também “Here Today”, canção composta para o amigo John que sempre o emociona e vez por outra arranca lágrimas do cara e assim foi na apresentação de BH. “Your Mother Should Know” , outra das surpresas do show foi recebida com reverência pelos espectadores e desaguou em “Lady Madonna” “All Together Now”, também apresentada ao vivo pela primeira vez e, não fosse uma lista que circulou pela internet e que muitos chegaram a pensar ser falsa, o impacto das novas canções incluídas no show seria ainda maior. “Mrs. Vanderbilt” deu sequência ainda na mesma pegada balada-de-violão-para-ser-dançada-e-cantada-em-coro-(de-preferência-por-pessoas-bêbadas). Já a balada mais épica e contida “Eleanor Rigby” serviu para dar uma recuperada no fôlego. 

Tanto com Beatles, Wings ou na carreira solo mais propriamente dita, o cara tem tantos hits para executar em um show que fica até difícil ele tentar sair disso para uma canção mais lado B, e aí a gente é obrigado a ter que considerar uma música como “Being For The Benefit Of Mr. Kite!” como uma dessas, outra vez Paul quebrou a tradição (na verdade ele já a mandou pro espaço faz tempo) e cantou uma música “mais” de John Lennon que ainda o tinha na voz principal, anunciada por Paul como uma estréia mundial em Belo Horizonte, fato que ele chamou atenção por ela nunca ter sido executada ao vivo por ele, entretanto esse também foi o caso de “Eight Days A Week” , “Your Mother Should Know” e “All Together Know” e “Lovely Rita”. “Something” mais uma vez serviu para homenagear George Harrison e continua sendo um dos melhores momentos do show (aliás, ele já deveria ter incluído uma homenagem ao Ringo nos shows faz tempo). Ele também manteve dos últimos shows a música “Ob-La-Di, Ob-La-Da” que sempre coloca o público para dançar e dá uma revigorada durante as apresentações de aproximadamente três horas feitas por Paul. Em “Band On The Run” houve novamente uma falha no sistema de som, porém dessa vez o PA emudeceu totalmente em dois trechos da canção, no entanto os músicos continuaram tocando normalmente no palco porque o problema não afetou o sistema de retorno, provavelmente Paul deve ter percebido algo errado em função das expressões do público, mas levou a música até o fim e depois o som seguiu perfeito até o final do show. A inclusão de “Hi, Hi, Hi” no show também foi outra grata surpresa já que ele também não a executava ao vivo desde os anos 70, essa banda rende muito nas músicas da fase Wings, uma deixa para os guitarristas Brian Ray e Rusty Anderson sentarem a mão nas guitarras e apresentarem ótimos solos. “Back In The USSR” também foi mantida no setlist e continua sendo responsável por um dos momentos de maior empolgação do show.

De volta ao piano para tocar “Let It Be” com o show de luzes feito pela platéia usando aparelhos celulares e que levou o beatle (decide que não vou chamá-lo mais de ex-beatle depois que o próprio declarou que sempre será um beatle!) novamente às lágrimas. A apoteótica “Live And Let Die” acompanhada dos efeitos de luz, fogos e explosões no palco cria sempre um grande momento de catarse que mais uma vez se repetiu. Ainda ao piano, mas agora usando o “Magic Piano” tocou “Hey Jude”, para ser ele dessa vez surpreendido pela platéia que levantou cartazes escritos “Thank You” e assim se encerrou o show com o público entoando ainda o refrão “na na na nanana nanana, Hey Jude” por alguns minutos até que ele retornasse para o sempre esperado bis, que teve “Day Tripper”, a “nova” “Lovely Rita” canção do álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band que também teve sua estréia em shows em BH e foi sucedida por “Get Back”. Sentindo falta de “Yesterday”? Sim, eu já disse antes aqui em outra postagem que ele nunca termina sem essa, e ele voltou pra tocá-la, com direito a “Helter Skelter” logo em seguida, o que dá ênfase a versatilidade de Paul, de uma balada com violão e quarteto de cordas (executados ao vivo por Paul “Wix” Wickens nos teclados) à porrada sonora da segunda, uma das canções precursoras do Heavy Metal. Para terminar de vez, a belíssima suíte “Golden Slumbers/Carry The Weight/ The End.

Toda vez que ele termina um show e diz até à próxima, tenho a certeza que verei novamente um show dele. E que novamente será genial e surpreendente. Long Live Rock’n’Roll, Long live Macca!  




Foto: in(f)ernet Marcos Hermes