domingo, fevereiro 11, 2007

Jovem Guarda: Rock brasileiro, o começo de tudo






“É Preciso Saber Viver” (Titãs), “Devolva-me” (Adriana Calcanhoto),” Negro Gato” (Marisa Monte), “Eu Sou Terrível”, “Pare o Casamento” (Kid Abelha), “Quando”,
“ Pode Vir Quente Que Eu Estou Fervendo” (Barão Vermelho), “É Proibido Fumar” (Skank), “Se Você Pensa”, “O Calhambeque” (Lulu Santos), “Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e os Rolling Stones” (Engenheiros do Hawaii); o que essas canções carregam em comum?

Simplesmente o fato de terem sido compostas, gravadas, lançadas ou versionadas para o português por cantores ou compositores da chamada Jovem Guarda, programa de TV da emissora Record que entre 1965 e 1968 liderou audiência no país e propiciou o primeiro grande momento de cultura de massa por aqui. Essas regravações (citando apenas algumas mais recentes) mostram a permanência e a importância da Jovem Guarda. O que era para ser um simples programa exibido nas tardes de domingo para substituir a proibição dos jogos de futebol é considerado hoje como um movimento ou ainda um estilo de música, também chamado Iê, Iê, Iê, este nome por sua vez veio dos críticos norte-americanos que por não aceitarem os Beatles como uma banda de Rock´n´Roll, intitulavam sua música de Yeah, Yeah, Yeah, baseado nos refrões das canções “She Loves You” e ”It Won´t Be Long”(o filme A Hard Day´s Night foi batizado aqui de Os Reis do Iê, Iê, Iê). A realidade é que o Rock nunca mais foi o mesmo depois dos Beatles, nem a música brasileira a mesma depois da Jovem Guarda.

Encabeçado por Roberto Carlos (o Brasa), Erasmo Carlos (o Tremendão) e Wanderléa (a Ternurinha), o programa reunia a turma que vinha fazendo rock por aqui, claro que assim como os Beatles na Inglaterra tiveram suas influências do rock americano misturadas à sua própria cultura, não poderia ser diferente aqui ou em qualquer outro país onde o rock bateu, basta reparar as diferenças entre uma valsa francesa, uma alemã e outra brasileira, por exemplo. Então, era natural que esses artistas ao fazerem rock incorporassem elementos da nossa música, como as canções românticas dor-de-cotovelo, baladas, samba e da própria bossa nova. E através dessa mistura, pela primeira vez o Brasil teve uma música jovem, feita por jovens e para jovens. Entre os artistas que participaram dessa história são destacados os nomes, além dos três já citados: Eduardo Araújo, Silvinha, Ronnie Von, Jorge Ben, Waldirene, Ed Wilson, Jerry Adriani, Antônio Marcos, Martinha, Sérgio Reis, Rosemary, Leno e Lílian, Os Vips, Golden Boys, Trio Esperança, Vanusa, e as bandas Renato e Seus Blue Caps, Fevers, Os Incríveis, Jet Black´s, The Jordans, The Youngsters.

A Jovem Guarda além de música lançava também moda, as roupas dos astros eram imitadas, suas gírias (“papo firme”, “broto”, “é uma brasa, mora?”, entre outras) repetidas nas ruas e; algumas, assim como as canções resistem ainda hoje, 40 anos depois. Exatamente para conhecer, ou simplesmente relembrar essa época que no fundo parece jamais ter sido esquecida, ainda que estejamos falando de um país com fama de não ter memória, dois livros foram lançados no ano passado, Jovem Guarda Em Ritmo De Aventura, (Editora 34) de Marcelo Fróes, nos apresenta o antes, durante e depois da Jovem Guarda, de onde veio, o que fez e para onde foi cada um dos artistas que ajudaram a escrever essas páginas da música brasileira. Já o Almanaque da Jovem Guarda (Nos Embalos De Uma Década Cheia De Brasa, Mora?, Ed. Ediouro) de Ricardo Pugialli, também autor do livro “Os Embalos Da Jovem Guarda” mostra essa mesma história, porém como o título sugere, através de recortes, fotos e notas da imprensa, e no fim ainda conta com “Os Arquivos Secretos da Jovem Guarda” que tem até notas de um caderninho em formato de diário que Roberto Carlos manteve no ano de 1959, quando cantava bossa nova na boate Plaza em Copacabana. Os dois autores também já um escreveram um ótimo livro em parceria sobre os Beatles (Os Anos da Beatlemania), infelizmente fora de catalógo. Fica então aí a dica desses dois livros para quem quer conhecer melhor a história do rock na música popular brasileira. Como disse certa vez Eduardo Araújo: nem tudo que reluz é ouro, mas a Jovem Guarda teve momentos de autêntico Rock´n´Roll!!!


Fotos:Calhambeque(Esq. para dir.) Martinha, Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Wanderley Cardoso, Eduardo Araújo e Wanderléa.
No palco do Jovem Guarda: Erasmo Carlos á esquerda e Roberto Carlos (guitarra) Wanderlá(a dire. de calça,)banda e dançarinas.
capas dos livros: Jovem guarda em Ritmo de Aventura e Almanaque da Jovem Guarda.



Post dedicado ao Leonardo Ribeiro (pelo interesse, valeu Brother) e Jéssica Bandeira (garotinha papo firme)...


Dicas de sites sobre os autores e os livros:
http://www.jovemguarda.com.br/
www.tucunare.bio.br

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Deep Purple – A Perfect Night - Show Deep Purple, 03 de dezembro de 2006 em Belo Horizonte






Domingão de Rock´n´Roll em Beagá e lá vou eu pra mais uma aventura, saído de casa completamente cansado depois de uma semana árdua de trabalho (podem acreditar), mas o motivo sem dúvidas valia a pena (mais do que eu esperava), afinal de contas não é todo dia que tem um show assim na roça. Mais embalado pelo prazer de ver o Steve Morse tocar do que pela própria banda (que os fãs de Blackmore me perdoem, adoro-o, mas não sou fã ferrenho de Purple a ponto de implicar com isso, ainda mais tendo como substituto um guitarrista do nível do Morse) e a presença do baterista Ian Paice (melhor som de caixa do rock), que há alguns anos andou tirando um som com Sir Paul McCartney (isso fica para um possível post futuro). Nos vocais Ian Gillan que esteve muito bem (apesar de David Coverdale ser meu predileto...ok, podem me amaldiçoar), o genial Roger Glover no baixo, e nos teclados Don Airey,o integrante a menos tempo na banda. O show faz parte da turnê de lançamento do disco Rapture of the Deep. 

Por motivo de força maior (“buteco” com uns amigos antes do show) acabei chegando atrasado e como consequência perdi praticamente metade do show, incluindo um solo do Morse em que ele cita Beatles, Led Zeppelin, Guns´n´Roses, Black Sabbath, entre outras (uma pena). Mas foi só colocar um pé lá dentro e ver aquela platéia ensandecida para eu me convencer que definitivamente esse é meu mundo. E até mesmo pelo fato de encontrar com vários amigos, alguns músicos com quem já toquei me dá essa sensação. Já entro com a ambição, rara nos últimos tempos de me aproximar o máximo do palco, e do lado direito pude conferir com detalhes a performance de Morse, trajando uma camisa azul com uns motivos psicodélicos brilhantes e um velho jeans desbotado, aliás a imagem da banda é essa mesmo, simples, não me surpreende que o próprio Gillan estivesse como qualquer outro coroa que foi assistir ao show, calça Nike e t-shirt preta...não, não, não estou escrevendo sobre moda, mas para completar eu mesmo usava uma das minhas camisas do Rei Roberto Carlos, famosas em show de rock pelo Brasil a fora, essa era a mais velha, dez anos de uso...

Momentos de êxtase total quando a banda entoou canções como Perfect Stranger, Highway Star e Smoke On The Water, que fechou o show, no bis a catarse se deu com Black Nigth que a platéia já cantava antes da banda retornar ao palco, como é de praxe, cada integrante teve seu momento solo, e fica difícil destacar algum,Don Airey fez um solo de teclado desconcertante, a galera realmente vibrou, Glover solando só com o acompanhamento de Paice que também desceu a lenha na batera quando chegou sua vez.


A presença dos coroas era notória (será que chegou a hora de fazer uma Velha Guarda do Rock???), e um deles à minha frente em dado momento do show, fazia observações ao ouvido do filho aparentemente de uns 13 anos sobre a banda e de como o guri deveria tocar guitarra (tomara que ele aproveite as lições). Apesar da aprovação dos pais (que em outros tempos alimentavam preconceitos em relação ao estilo musical e do comportamento, é claro que hoje temos uma geração de pais que cresceram com o rock), o rock´n´roll ainda subverte, ainda tem aquela chama que o caracterizou desde o início, algo que desafia, que vai além, e foi isso que eu vi depois que saí de casa naquela tarde de domingo, jovem tarde de domingo (como diria Roberto Carlos), apesar das cabeças grisalhas e carecas, no palco e no público...

domingo, novembro 12, 2006

The Cranberries: uma breve viagem discográfica




A banda mais nova entre aquelas que eu me declararia fã, e olha que eles começaram a mais de quinze anos atrás, o que denuncia meu gosto por bandas (e coisas em geral) mais antigas, os Cranberries, surgiram na cidade de Limerick na Irlanda. Tudo começou em 1989 quando os irmãos Noel Hogan (contrabaixo) e Mike Hogan (guitarra) encontraram com o baterista Feargal Lawler, a banda então foi batizada com o nome de The Cranberry Saw Us, que fazia um trocadilho com a palavra sauce (molho em inglês) vale lembrar ainda que cranberry é uma fruta típica da Irlanda (me recordo então de “encher o saco” da minha professora de inglês querendo uma tradução para a palavra, e não havia, até pelo fato da fruta ser rara e não encontrada no Brasil), e a expressão ainda era uma citação a John Lennon, que fala “cranberry sauce” na música “Strawberry Fields Forever” presente no disco “Magical Mistery Tour” dos Beatles. 

Entre vários vocalistas que fizeram testes com a banda depois da saída do vocalista Niall, surgiu uma garota de nome Dolores O´riordan que fora indicada por ele mesmo,
Dolores era amiga da namorada de Niall e acabou assumindo o posto, segunda ela, “os caras da banda esperavam chegar uma garota de mini-saia e costumavam levar todos os amigos para o ensaio e eis que surge ela de terninho e com um teclado debaixo do braço”. Além de uma bela voz extremamente marcante, Dolores também compunha, e dos primeiros contatos acabaram surgindo canções em parceria com o guitarrista Mike, sendo que Dolores era a responsável por todas as letras e participava também das melodias, e no fim ela se tornaria a autora da maior parte do repertório da banda.

Já com o nome mudado para The Cranberries eles gravaram em 1990 uma fita demonstrativa que rendeu um contrato com a gravadora Island e no ano seguinte eles lançaram o EP “Uncertain” que não teve muita repercussão, na seqüência saiu o single “Dreams” de 1992, mas o estouro mesmo veio com o single seguinte “Linger” de 1993 que até hoje é considerado o maior sucesso da banda, e abriu as portas para o primeiro disco, com o extenso nome: “Everyone Is Doing It, So Why Can’t We?” lançado no mesmo ano e que incluía os dois singles, destacam-se ainda “Sunday”, “Wanted”, “Pretty” a produção foi de Stephen Street, que havia trabalhado com os Smiths.

No ano seguinte também sob a tutela de Street eles lançaram o disco que consagrou a banda “No Need To Argue” entre os hits: “Zombie”, “Twenty One”, “Ridiculous Thoughts”, “Dreaming My Dreams”, e “Ode to My Family” (que me remete à primeira vez que ouvi a voz de Dolores, deitado no sofá num fim de tarde com o rádio ligado, aquela voz adentrou meus ouvidos e nunca mais saiu, tempos depois compus uma canção em sua homenagem, talvez um dia Dolores e a humanidade a conheçam...).

O disco “To The Faithful Departed” lançado em 1996, fecha uma trilogia de capas (esses três discos trazem a banda em fotos similares sendo que nós dois primeiros eles aparecem sentados em um mesmo sofá, no terceiro não há o sofá, mas o estilo permanece) e foi produzido pela banda juntamente com Bruce Fairbain (que havia trabalhado com as bandas de hard rock, Aerosmith e Bon Jovi), o disco tem uma sonoridade com guitarras mais à frente e mais distorcidas, porém permanecem as sutilezas dos arranjos, sejam dos instrumentos tocados pela banda ou pelas partes orquestradas, dessa vez feitas pelo maestro roqueiro Michael Kamen (até então essas partes tinha ficado a cargo de Dolores que também gravava teclados, violões e guitarras, sendo até mesmo a responsável por alguns solos). Nas letras, predominam a morte como tema, cabendo homenagens a vários mortos, John Lennon (I Just Shot John Lennon), Kurt Cobain (I´m Still Remembering) e Joe (dedicada por Dolores ao seu avô). Sendo quase sempre uma prova de fogo para qualquer banda que vem de dois primeiros discos de sucesso, esse terceiro disco definitivamente afirmou o lugar da banda na história do rock, sendo a segunda banda mais expressiva da Irlanda, que tem sua marca maior no U2 (que por acaso nunca gostei, com exceção de uma ou outra canção). Hits do disco: “Salvation”, “When You´re Gone”, “Free To Decide”, com destaque ainda para os belos “lados B´s” (se é que a expressão ainda faz sentido na ausência do vinil), “War Child”, “Will You Remember?” e “Forever Yellow Skies”.

Em 1999 lançaram o álbum “Bury The Hatchet”, aonde a banda também divide a produção do disco, desta vez com Benedict Fenner, destacam-se as músicas “Animal Instinct”, “Promisses”, “You And Me”, “Just My Imagination”, “Delilah”, “Dying In The Sun”, que mantiveram o prestígio da banda.


O último de inéditas foi “Wake Up and Smell The Coffee” de 2001, quando voltaram então a trabalhar com o produtor Stephen Street, o disco não teve a mesma repercussão dos anteriores, mas garantiu os hits: “Analyse” e “Time Is Ticking Out”, na minha opinião, o grande momento mesmo foi a faixa bônus “In The Ghetto”, uma regravação da canção do compositor Mac Davis que foi grande sucesso na voz de Elvis Presley.

A coletânea “Stars” de 2002 contendo as inéditas “Stars”, “This Is The Day”, “New New York”,parece fechar uma segunda trilogia de capas, agora em locais abertos e tendo o céu de mesma tonalidade azul ao fundo, este disco iniciou uma pausa nas atividades da banda, ainda não definida como temporária ou definitiva, apesar de que tudo aponte para a segunda opção. Noel está há algum tempo com um projeto tido até então como paralelo chamado Mono Band, Dolores vem trabalhando em um disco solo; e mais recentemente apareceu no filme “Click” cantando a já eterna e clássica “Linger”.

A banda conseguiu nesse período produzir uma obra consistente e que deve permanecer, os integrantes nunca foram virtuoses em seus instrumentos, com um destaque maior apenas para o baterista Feargal, mas como estamos falando de rock e música popular isso não é o principal, e sim a alma, a musicalidade impressa nas canções, e isso eles tiveram de sobra...



Post dedicado para Natália (que sugeriu a banda aqui), Priscila e Caio.



Para biografia e discografia completas acesse:www.cranberries.ie