quarta-feira, janeiro 06, 2010

"Desculpa de Boris" (ainda sobre o caso dos garis)

http://www.youtube.com/watch?v=AXg6L9OtMTY

Vi o vídeo com a ofensa do jornalista Boris Casoy aos garis que desejavam feliz 2010 na vinheta da Rede Bandeirantes, li o texto da minha amiga Jéssica (http://revue-du-cinema.blogspot.com/2010/01/o-eterno-baile-de-mascaras-brasileiro.html), assisti ao vídeo com o pedido de "desculpa" de Boris Casoy, fui dormir e acordei com a mesma resignação que me fez escrever este comentário:
Depois de ver a vinheta da emissora em que os dois garis desejam feliz ano novo aos telespectadores, o apresentador do Jornal da Band solta as frases: "Que merda, dois lixeiros desejando felicidades...do alto de suas vassouras, o mais baixo da escala de trabalho..." no meio a também apresentadora Millena Machado solta um risadinha como que em apoio às palavras. Em uma entrevista à Folha Online ele se desculpou por não saber que o microfone estava ligado e por ter dito segundo ele, a tal "frase infeliz", como se o erro consistisse simplesmente nisso, quase transmitindo a culpa ao operador de áudio. Parecia que o erro não era o que havia dito (e pensa!) e sim que aquilo tinha ido ao ar, no dia seguinte durante o Jornal o apresentador se "desculpou" com o público de uma maneira que me deixou mais abismado ainda, com a voz indiferente como se estivesse lendo uma notícia qualquer durante o programa ele fez seu pronunciamento pedindo a desculpa mais esfarrapada que eu já vi alguém pedir na vida, nem mesmo alterou sua expressão facial, um pedido de desculpas que não mostrou o mínimo arrependimento, como se estivesse apenas cumprindo uma ordem superior (de alguém um nível acima do seu na escala de trabalho), manteve a arrogância e o nariz em pé. A mesma Folha Online tinha tratado o caso da ofensa simplesmente como uma gafe. Não, não e não. Isto não é uma gafe! Isto é um ato crucial de preconceito mesmo e era o que a manchete deveria estampar. Se a questão é o nível na escala de trabalho, talvez o jornalista respeite mais alguns políticos e empresários sobre os quais ele noticia diariamente casos de corrupção, corrupção essa que tira a possibilidade de mais qualidade de vida aos garis e tantos outros em seus níveis mais baixos na escala de trabalho.
Feliz 2010, Seu Boris, está feito o pedido de desculpas e eu não o aceito, e mais, daqui por diante para que uma atitude estúpida como essa não seja esquecida usarei a expressão "Desculpa de Boris" toda vez que perceber alguém pedindo desculpas por simples obrigação e que não represente o seu sentimento ou arrependimento.

Em tempo: esse mesmo ano eu achei maravilhosa uma propaganda de uma emissora de TV mineira em que um gari desejava feliz ano novo a população e pedia a contribuição do povo em não sujar e poluir a orla da Lagoa da Pampulha em Belo Horizonte durante uma tradicional queima de fogos do réveillon.

sexta-feira, abril 03, 2009

O "Álbum-Beatle" de Roberto Carlos






Sempre que se faz uma lista dos discos mais importantes da história do rock brasileiro é comum que sejam citados dois álbuns gravados por Roberto Carlos, “Jovem Guarda” de 1965 ou “Roberto Carlos Em Ritmo De Aventura” 1967. Dois grandes discos, sem dúvidas, porém, entre esses dois anos o cantor lançou outro grande LP comumente ignorado em favor desses. É o disco de 1966 que aqui chamo de “O Álbum-Beatle de Roberto Carlos”. Esse é o primeiro disco no qual transparece a influência do quarteto de Liverpool na obra do Rei, desde a capa inspirada no disco “With The Beatles” lançado na Inglaterra em 1963, o que denuncia uma influência tardia já que a base do disco de Roberto Carlos prevalece o rock chamado de Iê, Iê, Iê e na época os Beatles já estavam partindo para outros caminhos e experimentações sonoras (vide os discos “Rubber Soul” de 1965 e “Revolver” de 1966). 

O faixa de abertura é “Eu te darei o céu”, considerada por alguns uma possível resposta de Roberto à canção do ano anterior “Quero que vá tudo pro inferno” embora o autor da canção (em parceria com Erasmo Carlos) afirme que não teve nada a ver. A frase de guitarra na introdução da canção lembra as sonoridades que os Beatles e os Byrds haviam produzido, aliás, as guitarras do disco puxam bastante para as gravações realizadas pelos FabFour entre 1964/65. A mudança da tonalidade maior para a menor na terceira parte quando canta: “Toda minha vida eu já te dei..."lembra a variação de acordes explorada pelos Beatles em “From Me To You” no trecho: I got arms that long to hold you...” quando a mesma tem uma modulação maior para menor. A condução feita no violão e o solo de “Nossa Canção” (Luiz Ayrão) têm ecos no elegante solo de violão executado por George Harrison na regravação da música “Till There As You” feita pelos Beatles, sendo essa música ainda uma das mais belas interpretações dos primeiros discos de Roberto Carlos. “Querem acabar comigo”, composição solitária de Roberto Carlos, é um caso à parte, de uma originalidade incrível, desde a letra em tom de autodefesa depois disfarçada em uma canção de amor (“Querem acabar comigo nem eu mesmo sei porque...enquanto eu tiver você aqui, ninguém poderá me destruir”), passando pelo arranjo bem ousado e moderno para a época sobretudo a condução dos tambores, tendo grande destaque também o órgão tocado por Lafayette, aliás esse na verdade era um dos grandes diferenciais na sonoridade de RC para os Beatles, que se baseavam mais nas cordas sendo ainda que frequentemente Roberto se utilizava dos metais que por acaso (ou não) quase não aparecem nesse disco ao contrário de TODOS os anteriores e posteriores. 

Na seqüência a regravação da bela balada “Esqueça” (“Forget Him”) de Mark Anthony versionada para o português por Roberto Corte Real com uma levada no melhor estilo “Things We Said Today”, canção de Lennon-McCartney incluída na trilha sonora do disco “A Hard Day´s Nigth” 1964 (no Brasil, “Os Reis do Iê, Iê, Iê”), este álbum contém ainda a música “And I Love Her” que foi gravada por Roberto Carlos vinte anos depois como “Eu Te Amo” em versão de sua própria autoria, sendo até então a única gravação efetuada por ele de uma canção dos Beatles. “Negro Gato” de Getúlio Côrtes, descaradamente inspirada na composição “Three Cool Cats” da dupla de compositores Jerry Leiber e Mike Stoller (responsáveis por diversos clássicos do Rock´n´ Roll) é uma das mais vibrantes e roqueiras gravações de RC, a guitarra sensacional gravada pelo músico Gato dá a tônica da canção junto com os berros de Roberto Carlos. Detalhe: a música “Three Cool Cats” fazia parte do repertório dos Beatles antes da fama e está presente no disco “Anthology 1” de 1995 com a versão interpretada por eles em um teste para a gravadora Decca.

Fechando o primeiro lado A, “Eu estou apaixonado por você” com uma sonoridade mais latina que apesar da letra ingênua pode ser vista como um embrião da fase “latin lover” que o cantor viveu no final dos anos 1970 com uma interpretação sensual feita com uma voz quase gemida. O solo de gaita nessa faixa seria por influência de John Lennon, vide as canções "Love Me Do", "Please, Please Me", "I Should Have Know Better", entre outras músicas dos Beatles que o músico toca esse instrumento?

O lado B abre com a faixa “Namoradinha de um amigo meu” assinada somente por Roberto Carlos (embora ele tenha dito numa entrevista que Erasmo tenha modificado algumas coisas) e que por ironia do destino foi escrita para uma banda chamada Beatniks gravar, porém eles finalizaram o disco antes que Roberto tivesse enviado-lhes a música. Mais uma vez o órgão prevalece na condução da música. “O Gênio” também de Getúlio Côrtes tem novamente ritmo pulsante e guitarras na linha de frente e é a única faixa que apresenta um solo de saxofone no disco. A balada “Não Precisas Chorar” de Edson Ribeiro também apresenta boas frases de guitarra, sempre com uma sonoridade bem beatle. O “Golden Boy” Renato Corrêa e Donaldson Gonçalves assinam um dos maiores clássicos do repertório roqueiro do Rei, “É Papo Firme” que narra o comportamento de uma garota “prafrentex” “que gostava de gíria e muito embalo”, mais uma vez a guitarra faz o papel principal, desde sua interessante divisão de tempo na introdução até o solo cheio de energia, durante toda a música a guitarra dialoga com o órgão nos intervalos das frases cantadas por RC. “Esperando Por Você” da compositora Helena dos Santos têm como destaque essa dobradinha guitarra-órgão. Para fechar “Ar de Moço Bom” de Othon Russo e Niquinho que Roberto canta com voz macia do jeito que manda o figurino de um bom rapaz. Esse disco mostra claramente que a influência dos Beatles sobre o Rei do Iê, Iê, Iê foi muito além dos terninhos que ele usava no programa Jovem Guarda. Roberto consegue mostrar que existe uma diferença entre ser influenciado e simplesmente copiar.


Fotos: capas de Roberto Carlos (1966) e With The Beatles(1963) e Roberto Carlos tocando uma guitarra Rickembacker de 12 cordas popularizada pelo uso de George Harrison.










segunda-feira, abril 28, 2008

Erasmo Carlos: 66 anos de idade, 50 de amizade com Roberto Carlos e toda a eternidade do Rock´n´Roll



Às vezes a gente pensa que já viu tudo na vida e de repente eis que somos surpreendidos. Erasmo Carlos, o eterno Tremendão me fez sentir essa sensação novamente durante seu show na última sexta-feira, dia 23 de abril. Cheguei à casa de shows e achei o movimento muito pequeno, quando entrei a impressão se confirmou, a platéia não estava tão grande, não me parecia um volume que fizesse jus a grandeza do artista. Porém bastou a banda atacar a introdução e Erasmo pôr os pés no palco para que qualquer imagem negativa se desfizesse, o público não era pequeno, era SELETO. Erasmo foi acompanhando em coro durante o show em todas as canções apresentadas e aplaudido calorosamente ao fim de cada uma delas. Abriu a noite com “Bicho de Estimação”, do cd Pra Falar de Amor, desse disco também apresentou a canção “Mais um na multidão”, gravada em dueto com a cantora Marisa Monte, na seqüência veio “Mesmo Que Seja Eu”. Cantou o amor às mulheres com suas clássicas “Mulher (Sexo Frágil)” e “Minha Superstar” e; em tempos de aquecimento global lembrou de sua “Panorama Ecológico” e o fato dele e Roberto Carlos estarem ligados em ecologia desde 1972.

O momento de maior emoção do show foi exatamente uma homenagem que Erasmo fez a Roberto. No meio do espetáculo, ele lembrou que eles se conheceram há exatos 50 anos, às vésperas de um show de Bill Halley no Maracanãzinho quando Roberto foi levado por um amigo à casa de Erasmo pela necessidade de conseguir uma letra de Elvis Presley para cantar no pré-show do roqueiro americano. Somente com o acompanhamento dos teclados, Erasmo acendeu uma vela e entoou um medley com algumas das maiores composições da dupla lançadas pelo parceiro Roberto, entre elas “Desabafo”, “Café da Manhã”, “Olha”(que já havia sido apresentada na íntegra), “Detalhes” e “Cavalgada”. Cássia Eller também foi homenageada na canção “Nasci Para Chorar” , versão que Erasmo assinou em 1964 e foi lançada por Roberto e que havia sido gravada pela cantora pouco tempo antes de sua morte para inclusão na trilha sonora do filme Houve Uma Vez Dois Verões.

Também fizeram parte do repertório as canções “Além do Horizonte”, “Pega na Mentira”, “Amar Pra Viver ou Morrer de Amor”, “Sou Uma Criança Não Entendo Nada”, “Gatinha Manhosa”, e obviamente seu maior sucesso não poderia faltar, “Sentado A Beira Do Caminho” na qual o artista se acompanhou ao violão, assim como em “O Calhambeque” outra versão que escreveu e foi um dos primeiros sucessos de Roberto Carlos.

Na última parte do show Erasmo mandou ver no Rock´n´Roll nas canções: “Eu Sou Terrível”, “Lobo Mau”, “Minha Fama de Mau”, “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo”, “Splish, Splash”, “O Terror Dos Namorados”, “É Proibido Fumar” e “Festa De Arromba” que provaram que ele merece mesmo o título de pai do Rock Brasileiro ao colocar para fora toda energia que um show de rock não dispensa. Erasmo contou com a força de sua banda que literalmente senta pau no Rock composta pelo grande guitarrista Rick Ferreira (Rick´n´Roll como diz Erasmo), o tecladista José Lourenço que também é o diretor musical, Alexandre Cavallo no contrabaixo, Sérgio Nacife na batera, Marcos Neto nos violões e teclados, Percy na guitarra e Daniel Dantas sax e flauta. Vale ainda destacar o som que estava excelente, fato raro em ginásios. Erasmo mostrou que está em plena forma aos 66 anos de idade assim como alguns de seus companheiros de geração como Paul McCartney e os Rolling Stones. Então Let´s Rock, Tremendão porque tem uma molecada aí que ainda precisa aprender o que é Rock´n´Roll!!!

Obs: as fotos não são referentes ao show em questão.

Em tempo: Erasmo Carlos recebeu um Tributo virtual do qual participaram várias bandas e artistas brasileiros e entre eles o autor desse blog. Conheça o projeto: