domingo, agosto 10, 2014

Engenheiros do Hawaii - Uma Breve Viagem Discográfica: Os Anos Gessinger, Licks & Maltz

7. Capítulo VI

Gessinger, Licks & Maltz (1992)




Nenhum título poderia ser mais direto do que esse que levou os nomes dos integrantes da banda, ou sobrenomes, na verdade. Gessinger, Licks & Maltz foi o sétimo disco dos Engenheiros do Hawaii (e sexto da formação) e manteve a tradição da banda de lançar um disco anual desde o lançamento do primeiro em 1986. Depois do sucesso arrebatador dos discos O Papa é Pop e Várias Variáveis, eles lançaram um álbum que teria menor repercussão radiofônica. Tornaram-se hits apenas as faixas “Ninguém=Ninguém” e “Parabólica”. O disco trazia uma sonoridade um pouco mais leve, com uma recorrência maior de baladas e muitos teclados. Porém, longe de parecer um disco fraco, ele apresentaria a banda num de seus melhores momentos, Humberto escreveu algumas de suas mais inspiradas (e longas) letras. Nos momentos power trio de guitarra, baixo e bateria, a banda apresenta a unidade e entrosamento conseguidos com os anos de estrada e gravações.

Uma guitarra slide acompanhada de um arpejo no contrabaixo abre o disco. Era a canção “Ninguém=Ninguém” que seria o primeiro single (ou música de trabalho como se diz de maneira infeliz no Brasil). Humberto seguia escrevendo letras que denunciavam seu incômodo com questões sociais e humanas, com título extraído de uma frase do livro A Revolução dos Bichos do escritor inglês George Orwell. A faixa apresentava a sonoridade atingida pelo grupo no disco anterior, Várias Variáveis, assim como a música seguinte:”? Até Quando Você Vai Ficar?” com seu arranjo e riffs intrincados de baixo e guitarra. Maltz se encontrava no seu melhor momento como baterista e contribui muito para uma das faixas mais marcantes da discografia da banda. “Pampa no Walkman” é uma milonga gaúcha, gravada de maneira acústica, apenas com os violões de Humberto e Augusto e a percussão de Carlos. A música foi composta por Gessinger ainda na adolescência e teve trechos revistos para a gravação, e assim como em muitos momentos da carreira da banda, dialoga com seu próprio trabalho ao fazer referência à música “Sampa no Walkman” gravada no álbum anterior. “Túnel do Tempo” é a primeira das várias faixas do disco nas quais o teclado assume papel importante na condução da música. “Chuva de Conteiners” retorna a sonoridade mais rock indo para uma linha mais virtuosística na construção do arranjo. Definitivamente os Engenheiros se encontravam num entrosamento musical excepcional. A música começa com Augustinho cantando uma segunda voz, coisa bem rara na história da banda. Da introdução leve acompanhada de violão, eles vão para uma quebradeira de guitarra, baixo e bateria como poucas vezes se ouviu no rock nacional. “Pose (Anos 90)”, outra das longas letras de Humberto, apresenta seus trocadilhos e aliterações, uma de suas marcas registradas que agradava muito aos fãs (e incomodavam imensamente aos que não curtiam a banda): “Não vou viver pra sempre, nem morrer a toda hora, como rasgos pré-fabricados num novo-velho blue-jeans”, “Pela TV a acabo uma baleia acaba de nascer”, “é pura pose, pois é, pós-qualquer coisa e o pior não é isso”. Depois de um falso final, a música retorna ao refrão para encerrar de forma abrupta o lado A. 

“No Inverno Fica Tarde + Cedo” abre o lado B, tendo mais uma vez o teclado como base principal, sendo que a maior parte da música é conduzida apenas pelo instrumento com Humberto se acompanhando enquanto canta mais alguns de seus bons versos (“só depois de perder você descobre que era um jogo, um jogo que não acaba nunca, nunca acaba empatado”). “Canibal Vegetariano Devora Planta Carnívora”, parceria de Gessinger e Licks, tem letra longa que faz jus ao título tanto no tamanho quanto nos trocadilhos (“overdose homeopática, ode ao que se fode, humildade com “H” maiúsculo e dourado, enfant terrible veterano, calendário eterno, fuso anti-horário, luz difusa, confusa explicação, tara relax, safe sex, disneylândia dândi, a grande guerra, pantanal new age, bacanal cristão, fanatismo indeciso, fanática indecisão...”). E se naquela época o compositor já achava um pesadelo a possibilidade de todo mundo ser tudo, o que diria hoje então, nos tempos em que “todo mundo é poeta, todo mundo é atleta” e que todo mundo realmente parece ser (ou querer ser) tudo? O contrabaixo aparece fazendo de forma marcante na música que é a mais longa do disco. “Parabólica”, outra balada acústica, teve a letra composta por Humberto para sua filha, Clara, e tem música de Augusto Licks que também construiu um belíssimo arranjo de violão. A música se tornou outro hit da banda. O teclado retorna em “A Conquista do Espelho” para reinar nas últimas três faixas do disco que se emendam como uma suíte. Augustinho apresenta alguns bons momentos de guitarra, bem como o solo da faixa em questão. “Problemas...Sempre Existiram” aparece na sequência e desemboca em “A Conquista do Espaço” que fecha o disco de maneira comovente com a guitarra “chorada” de Licks acompanhando o texto declamado por Gessinger: A MÍDIA...A MEDIOCRACIA, MUITO ZORRO E NENHUM SARGENTO GARCIA, HÁ MUITO JÃO NÃO SOMOS COMO JÁ FOMOS: TODOS IGUAIS, IGUAIS AOS POUCOS QUE AINDA ANDAM, IGUAIS A TANTOS QUE ANDAM LOUCOS, IGUAIS A LOUCOS QUE AINDA ANDAM, IGUAIS A SANTOS QUE ANDAM LOUCOS DE SATISFAÇÃO...”

A capa azul com escritos na cor amarela trazia engrenagens que imitavam o logotipo utilizado pela banda Emerson, Laker e Palmer, e assustava mais uma vez numa época em que já não era tão comum o uso das cores primárias (o que dirão hoje?). Com Gessinger, Licks e Maltz, os Engenheiros escrevem mais um capítulo de sua história e, o penúltimo da carreira discográfica de sua formação clássica.

4 comentários:

  1. Eduardo Dornelas8/11/2014 9:27 AM

    O Meu sentimento em relação a esse disco é meio inexplicável.Não sinto tanta emoção em ouvi-lo como sinto nos demais disco da banda.Porém, acho o instrumental excelente e as letras quase genias.Como destaque posso colocar Ninguém = Ninguém e Parabólica, músicas que ouvia no rádio em 93.Me falha a memória o nome de outra música, mas diz mais ou menos assim:"Pertenço a um país que não me pertence/Não sou gaúcho sou portalegrense".Parecido como eu me sinto, belorizontino e não mineiro.

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  2. Esses versos são da música "A Conquista do Espaço", eles aparecem depois da parte declamada que eu citei na postagem.Esse é dos discos que mais ouvi deles, eu lembro de ouvir desde o lançamento por muito tempo umas duas vezes por dia pelo menos. E também me identifico com a versão "caipira" do verso, embora eu gostaria de ser mais mineiro do que belorizontino.

    Abraço, brou!

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